quinta-feira, 15 de julho de 2010

A face do desrespeito aos jovens

É de se espantar o grau de espetacularização a que chegou o caso do assassinato de Eliza Samudio. Supostamente, ela foi morta por uma ação engendrada  por um ídolo do futebol nacional, o goleiro do Flamengo, Bruno. Uso a palavra 'supostamente', tão querida por eles mesmos da mídia em tempos de disse-me-disse infundado, para deixar gravada a minha sensação de desconfiança para com tudo o que vem sendo veiculado pela imprensa brasileira sobre este caso.

Foram derrubados e pisoteados todos os preceitos éticos que devem pautar a prática jornalística, assim como tem sido absolutamente questionável a atuação de um delegado mineiro, responsável pela investigação. Não vou tecer maiores comentários sobre isso, mas apenas analisar a quase histeria em torno deste caso, que já toma, a meu ver, ares de uma brutal insanidade coletiva. Uma boa amostra desta violência praticada pelos veículos de comunicação e pela polícia surge no vídeo abaixo, especificamente a 0'24'', quando uma certa imagem é sorrateiramente revelada ao Brasil:



Sim, mostraram o rosto do adolescente que participou deste crime e que o atesta por seu depoimento decisivo. E ao fazê-lo, a Rede Globo demonstra duas facetas de sua ignomínia: o desrespeito às leis e às autoridades e a sanha de fazer dinheiro com a alimentação de mórbidas curiosidades do telespectador.

O Estatuto da Criança e do Adolescente é claro ao exigir a preservação da identidade de indivíduos com menos de dezoito anos de idade, especialemte em situações que os exponham a constrangimentos ou a quaisquer outros tipos de risco à sua integridade moral e física. Ao exibir o rosto deste jovem, a Rede Globo, em horário "nobre", o lançou definitivamente ao inferno do julgamento público, o desrespeitou e o desdenhou, de modo a intensificar, dentre outros mitos infames, a teoria de que se faz necessária a redução da maioridade penal.

Todavia, pelo tipo de participação deste jovem, fica claro que ele foi levado ao ato pela influência que certamente seu primo Bruno exercia sobre ele. Um adolescente, por mais envolvido que esteja com a criminalidade, é um sujeito em formação e relativamente incapaz de prever as consequências dos seus atos. É nisso que a nossa Legislação acredita e, neste ponto, ela tem meu apoio.

Sei que é fácil a contestação desta tese pelo senso comum. Eu mesmo fui um adolescente que amadureci muito cedo, que me considerei senhor de minhas escolhas lá pelos catorze anos. Contudo, mais velho, eu percebi que o que eu tinha era informação, não discernimento. Sei que, em sua maioria, os jovens possuem informações suficientes sobre o mundo à sua volta, porém estas informações pouco lhes servem cotidianamente como parâmetro para a tomada de decisões, uma vez que, antes delas, temos as configurações familiares e as dificuldades da vida que interferem sobre os seus olhares e os fazem julgar equivocadamente os fatos que se lhes apresentam.

Em meu trabalho junto a adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa de Semi-liberdade, conheci dezenas de jovens. A maioria deles envolvidos com o tráfico de drogas, seja por meio da distribuição ou do furto para fins de consumo de crack. Outros envolvidos em agressões ou infrações contra a ordem pública, além de alguns homicidas. A maioria deles é, entretanto, vítima de um sistema social que os oprime e isola.

Sou categórico ao dizer: a minoria comete atos infracionais por ter o temperamento voltado à pratica de atos violentos; para a maioria dentre os que eu atendi, a violência é um elemento do discurso que viabliza sua inclusão entre os fortes e os temidos, de modo a escamotear seus sentimentos de inferioridade, que lhes foram inculcados desde a infância pela visão de sua própria miséria econômica e de sua exclusão social, e corroboradas pelos símbolos midiáticos que pululam em suas consciências fragilizadas.

A não ser que sofra de um distúrbio de personalidade, ninguém escolhe pegar numa arma e ferir ou matar alguém. Esta decisão é, via de regra, permeada por um sistema de crenças que a justifica e que faz dela uma ação inevitável. Um adolescente que pega numa arma para tal fim deve ser avaliado tendo em vista o papel que exerceram sobre ele a família e a sociedade para, somente a partir daí, se perceber o quanto sua atitude está ligada ao seu temperamento ou enquadrada numa rede obtusa de conceitos distorcidos a ele apresentados, seja por um Estado ausente, por uma sociedade discriminatória, por uma escola ineficaz, ou por meios de comunicação amorais.

Ao revelar ao Brasil o rosto desta vítima, a Rede Globo - e não apenas ela, diga-se, mas ela com maior impacto - expressa todos os elementos que perfazem sua ideologia, expressa em sua programação. Ideologia esta criada a partir do maniqueísmo que estimula a perveção e o abandono de valores como a solidariedade.

A utilização do termo "menor" para se eferir a adolescentes pobres ou infratores (pobres), em contraponto aos dolescentes dos programas de tv, é uma das marcas desta açao discriminatoria.
Ou há quem acredite que a novela "Malhação" contempla a vida de jovens como este? Adolescentes absolutamente vulneráveis à influência de primos ricos e famosos que conseguiram escapar da divisão injusta e arbitrária, entre ricos brancos e pobres pretos, que forma o cerne da "Malhação", do "Xou da Xuxa", do "BBB" e do "ti ti ti". A Rede Globo, cinicamente, ri da desgraça deste jovem que ela, junto com todo o grupo de forças que o vilipendiaram, ajudou a se estabelecer na vida dele.

As autoridades que se expõem a este circo macabro dançam a valsa imposta pela emissora dos Marinho. O promotor da Infância e da Juventude chega a ser desmentido pela repórter. Ele, infeliz por se propor a confirmar categoricamente o que lhe havia dito o jovem e ela, atendo-se aos documentos dispobibilizados pela polícia carioca, chama-o implicitamente de idiota, ao mostrar que o adolescente se contradisse no depoimento a ele.

Vê o quanto isso é grave?! Quando, meu Deus, promotores, delegados e juízes deixarão de entender a imprensa como um tal "Quarto poder" e a considerar que, para a opinião pública, assim como para a República, mais vale a lisura do resultado de seu trabalho, do que sua coadjuvação em reportagens impregnadas de tempero ideológico nocivo à necessária revisão de nossos valores, para que nossa sociedade passe cada vez mais a respeitar como tesouros, tanto "os comentários desconcertantes das criancinhas", como os velhos, que vão "perdendo a esperança".

Triste visão: a face deste pobre adolescente! Não deve haver lugar para tamanho desprezo aos Direitos da Criança e do Adolescente. E depois os radicais estão do lado de cá.

domingo, 11 de julho de 2010

A julgar pelas aparências

Fazer uma breve análise destas três capas da Revista Istoé Especial - Encontro com os Editores é  um exercício de leitura semiótica de grande qualidade para quem estuda política no Brasil.  A constatação a que eu chego é que os marketeiros, em sua maioria, não se atentaram para o quão largo é o escopo do seu trabalho e o quanto deveriam todos ser cuidadosos com os detalhes mais ínfimos. Ou não conhecem seus clientes, ou não conhecem o eleitorado que desejam cativar.

Desde já, opino que Dilma foi a que melhor se saiu na capa da Istoé e já falarei sobre suas escolhas para a foto. Vale apenas comentar que, ao que tudo indica, os retratos foram feitos por ocasião da entrevista. Os candidatos estão com as mesmas roupas com que aparecem nos vídeos, apenas a maquiagem foi retocada e a pose ensaiada de acordo com as circunstâncias. Achei justo o parâmetro para a produção da fotografia e por isso penso serem estas capas exemplos interessantes do quanto podem estar equivocados, tanto José Serra quanto Marina Silva, no que diz respeito às espectativas do eleitorado brasileiro, nestes tempos de afirmação nacional e de crescente pujança econômica.


Dilma Rousseff (PT)

Rosto: Olhar firme, resoluto, maquiagem discreta e feminina. Olha para frente, sem medos. O rosto todo exposto às luzes confirma a boa saúde. Seu semblante é simpático, com sombrancelhas que, por sua vez, confirmam seu ar de comandante, além do orgulho de ocupar esta posição. Aberta e sincera, Dilma não parece insegura ao apresentar sua face e sua mensagem.
Mãos: Unidas, a esquerda sobre a direita, envolvendo-a. A cabeça apoiada nelas, pende para a esquerda, gerando uma informação uniforme, que afirma sua tendência política. Como que uma seta se forma de um canto a outro da página, partindo do braço direito de Dilma , dirigindo-se ao É, de Istoé. A seta é ascendente.
Cores e formas: Além desta seta á esquerda, a imagem apresenta uma forma que insinua muita segurança e bases sólidas. A cabeça sorri, amparada pelo ombros que dividem a página. As mãos formam um triângulo que, ao se combinarem com a abertura do blazer, esta tbm um triângulo invertido, ajudam a dar sentido ascendente à fotografia. A cor azul e o bege do blazer acentuam a leveza do semblante da candidata. O relógio remete à gestora ciosa, cumpridora de prazos, um acessório absolutamente coerente com sua imagem pública.
Mensagem geral: De rosto renovado, Dilma diz de onde veio, aonde pretende ir e imprime empatia à sua imagem. Para o alto, avante e à esquerda. O ceu é o limite. As citações e a chamada funcionam como um complemento ideal à foto. Com ou sem interesse em protegê-la, a foto foi tão bem resolvida simbolicamente que, mesmo um letreiro que a tentasse denegrir, certamente esbarraria na força de sua imagem.

Marina Silva (PV)

Rosto: A candidata expressa fragilidade nesta foto. Posicionada de lado,voltada à direita, Marina não parece confortável. O olhar é um tanto cansado e o sorriso é por demais tênue. Eu poderia dizer que apenas o lado esquerdo de seu lábio sorri, timidamente.
Mãos: A mão esquerda parece amparar o rosto, ou sentir-lhe a temperatura. Ou ainda parece querer impedi-la de se voltar ainda mais à esquerda. Esta mão trai-a. A mão direita, oculta, parece estar a amparar a congênere. A meu ver, ocorre uma luta entre mão e rosto. Uma imagem intrigante para mim, por parecer mostrar um auto-abuso, o verdadeiro preço que ela paga a si mesma para estar ali.
Cores e formas: O verde, sim, o verde. A escolha óbvia, para localizá-la novamente no panteão político. As bordas escurecidas, no entanto, acentuam o ambiente claustrofóbico em que se meteu a candidata. Tudo leva a criar uma impressão de opresão sobre ela e o mais inusitado é perceber esta teimosia dela em se voltar à esquerda.
O seu corpo não ocupa toda a extensão da capa, parece ter sido posicionado por uma segunda pessoa. O seu semblante é o de uma pessoa febril. O casaco grosso ajuda a manter esta idéia de fragilidade e os anéis parecem mais amarrar seus dedos que adorná-los.
Mensagem Geral: Marina parece forçada a fazer o que não quer. Perdida e frágil, sua imagem a mim apenas denota o seu desconforto para com o lugar que ocupa atualmente, embora seja visível seu esforço em se forçar a ao menos aparentar o contrário.




José Serra (PSDB)

Rosto: Serra força-se para parecer o que não é: "meigo". Seu riso é sem alegria, e seu olhar é duro e perfurante. A tentativa de sorrir com simpatia lhe é negada pelo peso inerente ao olhar e a sua 'volta à esquerda' demonstra, na verdade, que ele já não se encaixa no papel. A vista cansada não o ajuda e ele sofre de um mal que nada tem a ver com a beleza (ou com a falta dela): Serra não consegue expressar sentimentos e emoções mais gratificantes. Titubeia quando pretende apenas esboçar alguma empatia.
Mãos: A mão esquerda recebe a cabeça, sem ampará-la. A mim, causa desconforto perceber que a 'estrutura' formada pelo dedão e o indicador dobrado não são suficientemente fortes para suportar o seu crânio de fisionomia tão pesada. Ademais, o dedão, em vez de apontar para a esquerda, aponta para trás, dada a posição do corpo frente ao eixo da fotografia, o que dá ao retrato um sentido que não é de modo algum agradável a este candidato de oposição.
Cores e formas: A cor escura do terno e a infeliz escolha da cor de fundo dão um ar soturno à fotografia e expressam muito mais o ambiente de um filme de horror do que a propaganda de um homem que diz haver se preparado toda a vida para presidir o país.Talvez a intenção fosse apresentar sobriedade, contudo o resultado remete a exatamente o tipo de 'castelo' em que ele não pretende, àquela altura da disputa, ver-se associado.
Mensagem Geral: Eu, no lugar de Serra, processaria toda a sua assessoria de comunicação.

A julgar por estas imagens, dá para ver claramente quem se apresenta como vencedora. Antes disso, quem se apresenta como uma candidata com força na disputa. A mim, espanta terem tantos assessores se esquecido das lições de semiótica e deixado de cuidar bem da imagem de seus clientes. Se a imagem vale alguma coisa nesta nossa "cultura do visual", somente Dilma parece ter uma equipe que, efetivamente, a ajuda a ser a Dilma que todos querem ver em frente às câmeras.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

1,5 x 10 = Cinema

De que é feito um bom filme?

Falar sobre cinema, como brasileiro, enche-me de certa angústia, porque eu não consigo aceitar a nossa situação periférica no que diz respeito à produção cinematográfica.  Com raras exceções, inclusive com a honrosa presença de um meu conterrâneo Glauber, a quem devemos os princípios pelos quais se regem os melhores projetos de cinema da atualidade, a nossa tradição cinematográfica é, ou obscurecida por um oportunismo irresponsável de cineastas amadores, que resulta na produção de filmes sem a mínima qualidade técnica ou dramatúrgica, ou no lançamento de filmes capengas, oriundos de olhares e de mãos hipnotizadas por um padrão audiovisual extremamente comprometido pelo ritmo e superficialidade televisivos.

As raras exceções, que apresentam apuro técnico e roteiro elaborado, volta e meia confundem-me como espectador, pelo apego à tragédia de cada dia dos pobres brasileiros, numa fetichização desta miséria. Muitos dos nossos filmes apelam para um tal realismo que, embora sejam bem feitos e ofereçam um bom espetáculo cinematográfico, quase podem ser classificados como panfletos direitistas e cínicos, despejados sem dó ou piedade por pequeno burgueses pseudopolitizados.

Porque não basta comprometer o filme com uma "questão social", ou com a exposição de uma tal concepção pessoal sobre "o social". Ele, o filme, há que propiciar a vivência de um drama através da tela, para que seja arte e verdadeiramente arrebate quem o assiste. O fime não precisa embrulhar estômagos, submergindo-se na percepção da 'maldade' na vida de um pobre negro cooptado pela criminalidade, nem de um travesti que enfrenta o status quo à faca, da prostituta fodida e mal paga, ou do adolescente rico sem eiras ou beiras morais que estupra, mata e está nem aí para a vida alheia. Tudo isso em cinema, diria José Louzeiro, é peripécia.

Ação dramática implica a tradução poética de uma situação que pode ou não ter relevância no embate de idéias políticas. A grande dificuldade para um roteirista é expressar uma fala sem que ela pareça um discurso, que soe corriqueira e, ainda assim, cheia de simbolismos pungentes. Caso contrário, a opção por personagens embaraçosamente tristes ou aviltantes, deixa de ser um estilo para ocupar, equivocadamente, o lugar do gênero cinematográfico.

Filmes como Patrik 1,5 despertam-me esse sentimento crítico para com o nosso cinema exatamente por me arrebatarem pela simplicidade coerente, pelo respeito à integralidade  dos personagens. Preste atenção a esta sequência (com legendas em espanhol):





Pronto, não preciso dizer a você que o filme trata da superação de preconceitos. Não preciso dizer que o casal gay está presente, não para se ouvir subliminarmente a esta presença um coro, "oh, são gays equerem adotar uma criança", ou um "oh, um jovem bandido, retroalimentando um sistema miserável e vil", em relação ao Patrik "delinquente". Não, trata-se de um filme sobre alterar um modo de se ver a vida e de sa viver. Um modo de se perceber as memórias, os traumas, as frustrações, as perdas e de ultrapassá-los. Os personagens estão ali por serem arquetípicos, complementam-se para contarem uma história singela, porem repleta de interseções com as histórias de vida dos homens e mulheres que o assistiram comigo naquela noite de sábado.

O cinema não é um divã de diretores presunçosos, nem lhes deve servir como alento a seus egos insaciáveis. Todo maniqueísmo é pernicioso à arte. Toda vaidade embota o talento. Em Patrik 1,5, cada detalhe é leal ao conjunto da trama. Não há uma tentativa de algo ou alguém parecer maior que os desejos dos personagens; desejos estes que se cruzam o tempo inteiro, fazendo os protagonistas solucionarem uma equação complicada por inúmeras variáveis, pelos embaraços provocados pela cultura que cerca a cada um de nós, personagens na tela e cidadãos presentes à sala de cinema.

Em filmes brasileiros, poucas vezes isso acontece. Poderei eu ousar dizer que nunca ocorrem? Não quero ser injusto, por isso admitirei o 'poucas vezes', como para atenuar meu ressentimento. Se pegarmos os mais recentes sucessos de bilheteria nacionais, poupadas as comédias as quais eu não vi e portanto não tenho o que falar, temos filmes sobre a bandidagem, sobre a face escura (negra,sim) do Brasil pobre e racializado, em tramas hipocritamente engendradas para que o brasileiro médio continue a acreditar que a vítima histórica da desigualdade é, na verdade, a culpada pela própria mazela.

A inversão da identidade étnica num filme-referência da produção nacional dos anos 00, "Cidade de Deus", é uma das evidências disso que digo. Baseado em uma etnografia, o diretor optou por retratar negro o personagem sanguinário que, na história real, era branco. Por que será?

Se Patrik 1,5 fosse dirigido por um destes brasileiros, eu não tenho dúvida de que haveria um antentado engendrado pelo adolescente. Ao contrário, Patrik 1,5 transfere parte desta agressividade a um dos gays que formam o casal, de modo a equalizar uma informação elementar do filme: a causa da violência tem múltiplas fontes e não está atrelada ao sujeito, mas principalmente à sua trajetória e à percepção pelo outro de sua carência. Este enfoque nos faz distribuir amor igual aos três personagens centrais e nos faz enxergar a violência que existe por trás da vida regular de um subúrbio sueco, ou de um bairro qualquer na grande Salvador, cheia de histórias de desgraças e explorações.

Assim, eu retorno à pergunta inicial: um filme deve ser feito de abnegação e simplicidade. Uma boa história é maior e mais importante do que um posicionamento subjetivamente considerado edificante - via de regra estas atitudes de soberba acabam por expressar ignomínia e preconceito, comprometendo a obra esteticamente. Uma lição que a maior parte dos deslumbrados diretores brasileiros precisam aprender, antes de quererem as glórias de serem considerados deslumbrantes.

terça-feira, 22 de junho de 2010

CALA BOCA, e temos dito

Eu já queria escrever sobre o humor e o esporte na programação da Rede Globo há algum tempo e eis que surgiu o momento ideal. Entretanto, antes de comentar mais um homérico CALA BOCA no Twitter, vou lhe incitar com três questões que assaltam a mim, que não sou um espectador de esportes:

Por que a Rede Globo tem apelado para o "humor" em suas reportagens sobre futebol, nos últimos anos?
O que tem Tadeu Schmidt de engraçado?
E, finalmente, por que eu me tornei um fã de Dunga?

Vou elaborar resposta a cada uma destas perguntas.

A Rede Globo buscou no humor um ingrediente para manter a atenção do seu espectador futebolístico, uma vez que este já havia cedido seu apreço para outros canais de informação, muito provavelmente por ter enjoado de uma velha receita de comunicação centrada na opinião de sábios e experts esportivos, com suas vozes empoladas e seus jaquetões de botões dourados. Outra função do humor nas reportagens sobre esporte é conquistar um espectador mais jovem, afeto a uma linguagem mais coloquial e à interação com a informação transmitida. Contudo, erraram na dose, nos dois sentidos.

Eu sempre detestei aquele quase proselitismo dos que tratavam futebol como uma causa política, um assunto da maior importância. Enojam-me sempre as converas seriosas e demoradas na tela de tv sobre determinado lance do jogo, bem como todo o vocabulário que compõe um comentário sobre futebol.

Contudo, eu compreendo ser o futebol um elemento de nossa cultura absolutamente fundamental para a nossa agregação e para a nossa identificação como brasileiros. Para além dos incidiosos usos do esporte para a dominação política, sei que, na cultura, ele sempre foi um fator nacional relevante, em todas as comunidades. Se, em nosso Brasil de homens e mulheres educados para a política do favor e do mandonismo, o futebol cumpria (ou ainda cumpre?) uma função idiotizante, aí eram outros quinhentos, os quais sequer eram exclusividade nossa.

Aonde quer que se vá, encontrar-se-á um povo hipnotizado num estádio por uma partida de rugby, uma corrida de cavalos, ou uma partida de futebol. O que me incomoda é tornar o preselitismo num fator de distinção que, nessa atividade tão prosaica e elementar, apresentava ao brasileiro simplório, acomodado em seu sofá, com seu copo de cerveja e seu tira-gosto, um tipo garboso e imprestável, pago para despejar sapiências inócuas e para ser mais um, na telinha, a repetir: "você, 'Hommer Simpson' não sabe pensar, apenas sente. Eu penso por você e cale a sua boca!"

Ocorre que esse Hommer mudou e já não se ludibria mais com a insistente gritaria dos narradores futebolísticos. O que lhe foi imposto como alternativa, então? Um reporter engraçadinho. Assim, a Rede Globo parecia dizer: vamos pega-los pelo humor, já que 'os brasileiros' têm um humor peculiar e que ele permeia praticamente todas as ações destes 'Hommers'. Erraram no tipo, não na constatação.

Sim, porque somos humorados e a mega-piada CALA BOCA GALVAO afirma o nosso estilo. O 'humor' de Tadeu Schmidt, por seu turno, é tudo menos engraçado. Não é o humor do brasileiro médio, tampouco o brasileiro que eles parecem enxergar é o brasileiro que de fato existe. E daquí eu passo para a segunda resposta.


Tadeu Schmidt é um tremendo besta. Sabe aquele colega tosco, que faz gracinhas com sua voz estridente, que não sabe rir junto, mas apenas rir de (algo ou alguém)?

Aquele típico piadista de churrasco, de cuja piada não vale contestação ou intervenção e que o riso que ela provoca é mecânico? Sabe aquele chato, de inteligência mediana, que é suporável apenas por assumir, como estilo, o tipo 'genro que mamãe pediu a deus'?! Aquele que ocupa seu espaço entre os demais como que dizendo: "eu, do alto de minha sobriedade, vou rir enquanto vocês apenas vomitam. Eu sou demais! Invejem-me, seus bêbados!"

Esse é o humorista que a Globo escalou para hipnotizar com gargalhadas os Hommers Simpsons vidrados em futebol. Não é o cúmulo do desrespeito acreditar que os brasileiros espectadores de esporte se deixariam levar por isso?!

Tal qual um CQC, só que engomado, Tadeu Schmidt é um pulha assalariado, um pobre coitado que não se respeita e que não respeita os demais. Um lobo em pele de cordeiro, um daqueles 'genros que mamãe pediu a deus' que matam qualquer um de tédio! Esse moço, coitado, é um tolo. Sua façanha, que o credenciou a estar a cada domingo no Show da Vida (dele), é um quadro, "Bola murcha e Bola cheia", pelo qual ele esbanja talento para trocadilhos absurdamente imbecis. Seu taleto para a piada é tão irreal quanto a sua simpatia.

Ele mereceu o CALA BOCA, menos que GALVÃO, evidentemente, porque menos notório e menos notado. Porém, ganhou minha gratidão por ter criado, em meu panteão, um ídolo novo: Dunga.

Sou admirador de homens e mulheres independentes, francos e corajosos. Gosto dos que não têm medo, dos que se deixam guiar por seus institntos e por suas convicções. Quero o bem de quem tem seus princípios e faz deles bandeiras de suas batalhas. Eu confirmei, graças a Tadeu Schmidt, uma suspeita antiga: Dunga defende a mesma causa que eu.

Lutamos, juntos, contra esta hegemonia ilegítima e ultrapassada da Rede Globo de Televisão, ou melhor, de toda a Mídia Direitola, que se arroga no direito de influenciar decisões capitais para o Brasil.

Dunga se tornou meu ídolo, no exato momento em que eu ouvi, pela internet, após a exibição do Fantástico na Globo, o 'pronunciamento' desta emissora, cujo porta-voz foi o seu palhaço da vez, o mauricinho encapuzado, Tadeu Schmidt. Oh, coitado! Todavia, eu não esperava ver confirmada tão rapidamente a minha tese do post anterior, escrito no último dia 17, pela qual eu argumentei que o Brasil já luta contra a Globo, mas o que foi que me surpreendeu hoje pela manhã, nos trending topics do twitter? O sonoro CALA BOCA TADEU SCHMIDT, que dominou o mundo.

Desta vez, não queríamos somente fazer piada. Fomos mais diretos em nossa mensagem. CALA BOCA REDE GLOBO foi o subtexto. Estarmos imbuídos disso dá-me vontade de chorar! Num dia só, ganhei um general e um exército ou, para ser engraçadinho, num só dia ganhei uma seleção brasileira para eu torcer (cosa que nunca fiz na vida, juro) e um circo inteiro do qual eu rirei cada vez mais, junto com meus contemporâneos.

Perdeu, playboy! A casa caiu, a bola murchou, 'vaza'! Agora é a hora e a vez dos combatentes. Sai de baixo, que dia 25 vem mais na sua fuça. CALA BOCA:, e temos dito!

quinta-feira, 17 de junho de 2010

CALA BOCA GALVAO


Fico imaginando o estarrecimento dos donos das grandes redes midiáticas brasileiras (ou mesmo de outros países) ao perceberem que seu "poder" já vai pelo ralo.

O fenômeno CALA BOCA GALVAO, que nasceu no twitter e atingiu jornais e televisões em todo o planeta, é a expressão do uso coletivo e inteligente de uma ferramenta digital para obtenção de domínio sobre a informação. Um verdadeiro descredenciamento daqueles que são pagos, ou pagam, para se fazerem ouvir incidiosamente, como se fossem os únicos detentores de um saber e dos quais nós, os espectadores, nos tornamos verdadeiros escravos.

Como não há sapiência nas falas de gente como esse Galvão Bueno, resta-nos responder à sua arrogância com uma ousadia bem maior que a que o seu salário lhe permite conquistar. Ele é apenas um funcionário da Rede Globo de televisão e, portanto, mais dominado que qualquer um dos que, para terem paz para vibrarem ao assistirem um espetáculo esportivo esperado por quatro anos,  sem serem importunados em sua privacidade por uma voz renitente e enfadonha que diz nada sobre tudo, gritaram, alto e claramente: CALA BOCA GALVÃO!



Se de início, a mensgem foi dirigida ao tal locutor, oportunamente, o Galvão foi se tornando cada vez mais arquetípico. Na expresão que rapidamente se espalhou pela internet, ele passou a concentrar significados múltiplos e complementares, para além das piadas com a Lady Gaga ou memso com os pássaros, embora esta imagem corresponda à sua fisionomia. Galvão, no twitter, passou a ser um símbolo que abarcasse toda uma comunidade de "jornalistas", "artistas" e "intelectuais" que serve obstinadamente aos interesses daqueles que os dominam pelo salário.

Galvão passou a ser também a ignomínia engravatada de um Arnaldo Jabor, a canastrice de Williams Waacks, a cara de pau do casal telejornal Nacional, a frivolidade do casal Huck, a empáfia grosseira e também verborrágica de Faustos Silvas e Gugus, a acintosa hipocrisia de Reginas Duartes, o cabelo alisado de Glórias Marias, além da indissimulada parcialidade de uma ficção que mais parece panfleto ideológico deste neoliberalismo cínico, que continua a endeusar caucasianos pequenoburgueses, como se "retratasse" um país qualquer, que não o Brasil.

Este CALA BOCA é o sinal de insubserviência, de um autêntico ato de desobediência. É quase a realização de um sonho Habermmaniano, uma sublevação inesperada e ofensiva daquele mesmo "povo" sempre tão "bem mandado", que comprava os mesmos produtos, nas horas marcadas por eles e pelos donos deles. Uma ação improvisada, porém deliberada por um desejo antigo de conseguir falar mais alto que esta gente. A Copa do Mundo é um desses momentos em que as vontades individuais se tornam imbuídas de sentimentos semelhantes, que levam a ações quase orquestradas. Eles pensavam que sua "ação pedagógica" pudesse ainda ser maior que a potencialidade nacional, ou que esta não se encaixaria jamais numa categoria política? Foi-se o tempo dos currais!

Devem estar atordoados, sem saber por onde começarem uma reação eficaz. Como bem lembrou Tsavvko, resta-lhes a tentativa de restrição de nossa liberdade online para fazerem valer seus interesses escusos. Contudo, eu duvido muitíssimo que venham a conseguir 'calar as bocas' de todos esses novos interlocutores dos meios de comunicação de massa.

Há mais a realizarmos do que ouvirmos o que eles querem dizer. E, embora o tráfego de informações na internet já seja bastante controlado (como já nos avisou minha querida M.I.A.), não há como frear uma ação criativa emanada por um cidadão conectado e, caso esta manifestação seja adotada como fala coletiva por milhões de outros cidadãos, haverá muito pouco que uma política privativa possa fazer.

Além do que, pensemos, já não se fazem mais Hommers Simpsons como antigamente, tampouco os Williams Bonners se mantiveram tão interessantes e sedutores, o que é ainda mais relevante. Assim, já não está tão numeroso o exército dos que se dispoem a repetir cegamente o que ouvem na televisão e o que leem nos jornais. A crise da profissão de jornalista é apenas reflexo desta atual indignação para com os notíciários e mesmo para com os  textos subjacentes aos roteiros de novelas, filmes e minisséries. Eles não queriam, ou sequer apostavam nesta possibilidade, porém ei-la viva: já não somos mais tão domináveis.

Portanto, esse CALA BOCA GALVAO é um ACORDA BRASIL, ou melhor, 'SAIAM FORA' MARINHOS, BISPOS MACEDOS, SAADS, CIVITAS! Esse CALA BOCA GALVAO - e todo o humor que o gerou e que dele foi gerado - é a expressão ideal da tal "inteligência coletiva", legítima expresão da cidadania, realização da democracia, propiciada pelo surgimento de um meio fluidio e ingovernável, como o é a internet. Sejamo-lhe gratos pelo início de nossa emancipação!

Eles devem estar embasbacados, sem dúvida. E já vinham ficando há anos, quando começaram a perder espaço para outras empresas, igualmente detestáveis. Desta vez, no entanto, passaram a sentir o golpe definitivo que os fará ter que ouvir as vozes dos que estavam fora. O golpe que os fará rever seus princípios e adotar atitude menos soberba. Este golpe se manifesta: na dificuldade de moldar os comportamentos sociais, mesmo com ofensivas como os BBBs da vida; na falência das telenovelas; no descrédito de "apresentadores" e "comentaristas"; e na contínua rejeição das mentiras interpostas por seus veículos de notícia. É o fim! Perderam, playboys!

E a resposta virá reiteradamente, na forma de negações aos seus ditames, como se vê com a enorme e estável popularidade de Lula, contradizendo toda uma campanha articulada de difamação e descredibilização. Certamente, ver-se-á também esta negação com a vitória de Dilma e com a perda de credibilidade de quem quer que se deixe envolver mais de perto em suas artimanhas contestáveis. E eles terão que 'calar suas bocas' e passar a nos perguntar o que queremos que eles digam, sob o risco de perderem completamente nossa atenção.

Para além de termos figurado autores da piada mais bem feita e genuína do Século XXI, uma realização coletiva de feito similar ao consagrado por Orson Welles, apesar deste nosso humor ter-nos feito heróis de uma nova era, orgulha-me o episódio CALA BOCA GALVAO pelo que ele tem de subversivo e simbólico para com nossa própria cultura.

O acerto de nossa parte foi tão eloquente, que faixas com a expressão CALA BOCA GALVAO têm invadido estádios sulafricanos, durante os jogos da Copa. No primeiro jogo, no vídeo acima, aquela faixa desapareceu em menos de dez minutos. Não sei se os nossos "comunicadores" e seus advogados foram poderosos o suficiente para obrigarem a sua retirada, prefiro crer que, dado o seu tamanho, ela atrapalhava a emissão das subliminaridades publicitárias em torno do campo de futebol. Não importa! Fizemo-nos ler em toda a rede mundial de computadores e temos invadido o território inimigo (a velha e boa telinha) para lançarmo-lhes novas bombas!

Brasileiros, fomos terroristas digitais numa guerra justa! Estou orguhoso de nós mesmos. Soubemos lutar e rimos enquanto o fazíamos. Demos mais uma lição ao mundo porém, antes, ensinamos a nós mesmos que, sim, podemos e vamos tornar diferentes as coisas de como elas estão.

Em alto e bom som, repitamos, enquanto for preciso: CALA BOCA GALVAO!

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Pena de Marina

Eu sinto pena de Marina Silva. Não por ela me parecer uma pessoa um tanto frágil, com o corpinho sempre a pedir repouso. Veja-a na capa da Istoé, acolhendo-se em suas mãos, indefesa, vestida com pulover de lã, em nosso "país tropical". Tadinha, parece febril. Contudo não é por isso que sinto pena, porque sei que ela é amada e terá sempre alguém a lhe cuidar com desvelo e, neste planeta, isso é mais do que precisamos.

Também não sinto pena de Marina por sua conversão ao pentecostalismo ultraconservador e de leitura restritiva da Bíblia, que tende a acreditar em cada vírgula do livro sagrado, desconsiderando o que ali houver de metafórico acerca da existência humana e seus conflitos subjetivos.

Não é por ela hoje acreditar na Bíbila como um compêndio de lutas do bem contra o mal e de normativas moralizantes adaptáveis à nossa época, mesmo sabendo que, como toda literatura, a Bíblia ancora-se em determinados contextos históricos e deve ser lido sob o filtro da cultura, sem que isso precise lhe extrair o mínimo de força simbólica. Não é por esta conversão que, para mim, torna-a alheia a cada verso de Augusto dos Anjos, ou mesmo a muitas das estrofes 'espiritualizantes' compostas por Gilberto Gil, que eu sinto pena de Marina Silva.

Eu sinto pena por Marina não se perceber vitimada por uma dessas insuspeitas articulações entre "bem-intencionados" e "ególatras corruptíveis", que costumam tornar os eventos políticos em festas cool, ao gosto de nossas elites "bem-informadas".

Marina é usada por todos os que se arvoram em negar a capacidade que a ignominiosa facção à direita de nossa política tem de, utilizando seu remanscente potencial eleitoral, atrair para si antigos "esquerdistas" que, insulflados pelo próprio ego, entregam de bandeja seus princípios, em troca de uma fatiazinha a mais num bolo que ainda imaginam fofo sobre a mesa.

Sinto pena de Marina Silva justamente por ela não perceber o quão refenizado se torna um partido da minimidade do PV diante destas investidas. Penso que, para setores tão agregados a propostas progressistas, especialmente o PV, ancorado nas causas ambientais, tornar-se em algum momento aliado de um DEM, por exemplo, é o mesmo que cuspir em sua história de lutas e esboçar um destino em que as personalidades que o compõem se verão sempre obrigadas a se contradizerem e a esmiuçarem argumentos toscos que lhes permitam justificar o ninho de ratos em que estarão metidos.

Desde que, no Rio, o PV inaugurou uma era de traição de princípios, aliando-se à direita nas eleições de 2002, se não me falha a memória, que eu conclui ser aquele o começo do fim do partido. Uma coisa é, num estado de menor relevância, aliarem-se dois grandes partidos antagônicos, numa manobra fisio-pragmática que, embora os manche em seus capitais políticos, não os impede de sairem ilesos, amparados pelo personalismo ainda presente em nosso debate político. Outra coisa muito diferente é um pequeno partido, ancorado na figura de uma personalidade que o representa, abrir-se ao inimigo, imaginando que esta personalidade terá meios de sozinha driblar os interesses escusos de um grupo de figurões da direita.

Ainda mais se esta personalidade verde for o controverso Gabeira. Alguém pode me dizer se existe no Brasil figuira menos confiável que este senhor? Com seus arroubos de vaidade e sua empáfia garbosa, este homem envergonha a política nacional, exatamente porque seus ternos bem cortados de hoje representam a perfeita evolução de sua tanga de crochê de outrora, mostrando que por trás de suas "lutas" esconde-se um pequeno-burguês vazio de verdadeiro comprometimento para com as causas que diz defender.


Sinto pena de Marina Silva por ter que dividir com José Serra alguns minutos na televisão, no Rio de Janeiro. Sinto pena dela por, em um eventual segundo turno ter, ou que ficar em cima do muro, ou ter que optar por apoiar ou ser apoiada por um candidato que está rodeado pelo que há de mais sórdido em nosso cenário político, grupo que não exitaria um segundo antes de mandar derrubar a amazônia e matar índios, se isso o ajudasse no acúmulo de mais alguns centavos.

Sinto pena de Marina Silva por ela ter que, em algum momento, definir-se finalmente. Ela é uma evangélica reacionária ou uma ambientalista, no que este termo tem de contraditório com as bases de sua "fé"?

Sinto pena de Marina Silva por, na Bahia, apoiar um Bassuma que, por meio da 'esperteza' de algum marketeiro, espalhou pelo estado um adesivo em que se lê "Assuma o verde", numa alusão ao seu nome, mas que, pelas graças da semiótica, pode retornar a ele mesmo, como que conclamando: "assuma-se, Bassuma, e 'se saia'!".

Assuma que seu posicionamento é incompatível com a luta por um desenvolvimento ambientalmente saudável, que perpasse a elevação, à categoria de Direitos, de certas prerrogativas sobre o corpo, sob o risco de, salvando árvores e baleias, deixarmos morrer à míngua milhares de moças de 14 anos, desesperadas por não poderem assumir uma gravidez.

A Política não é o campo da Moral, mas o meio pelo qual as diferentes morais possam se entender, sem se machucarem nas jugulares programáticas. Assim, mesmo sendo eu também contrário à prática do aborto, como político devo compreender que se trata de um problema de saúde pública e que se deve, sem hipocrisias, torná-lo num programa de respeito ao direito feminino de interromper uma gravidez, sob determinadas circunstâncias.

A Deus, o que é de Deus; aos humanos, a capacidade de pacificação. Que verde é esse que insufla a dúvida e a discórdia?! Assuma, Bassuma. Que pena de Marina!


Ela não deveria ter saído do PT e, quando o fez, demonstrou agir motivada por um sentimento igualmente incompatível ao seu discurso: a vaidade. Marina saiu do PT por descobrir que ela não seria a primeira mulher presidente da república. Não a culpo por seu ressentimento, afinal ela tem muitos dos requisitos, exceto dois, sumamente importantes: capacidade de diálogo e compreensão sistêmica dos interesses em jogo.

Ao optar pelo PV, clareou-se mais a sua motivação: garantia da sua tão ansiada candidatura. Entretanto, logo se percebe que a sendora se meteu num imbróglio: caso fosse eleita, teria, então, que renunciar à presidência, visto que as condições de melhorias interpostas ao Brasil implicam a busca de soluções conjuntas, as quais ela foi-se mostrando cada vez menos apta a facilitar, quando Ministra?

Sinto pena de Marina por esta contradição a que conscientemente entregou sua biografia e por hoje ter que mentir para tentar ganhar espaço no gritinho.

E, finalmente, pergunto-me: o que faz com que artistas, homossexuais e mulheres declarem seu voto em Marina Silva? Anti-fisiologismo? Mas, e a situação no Rio e os desdobramentos em nível nacional que ela sinaliza? Seria por conta do discurso ambiental? Mas, e as contradições na proposta, que parecem utópicas a ponto de contrariarem a tendência de aumento nos investimentos em infra-estrutura?

Seria, então, por um suposto prestígio à cultura nacional? Ora, as suas concepções religiosas não tornam Marina vulneráveis ao retrógrado, inclusive no campo das ciências, ou direito e ciência não são parte da cultura? Bom, seria mesmo as posturas conservadoras denunciando que, na verdade, nossos 'mudernos' são tão progressistas quanto Regina Duarte?! Sinal dos tempos....

Eu, enquanto me pergunto, espero pelos dias que virão. No fundo, há apenas dois discursos coerentes na disputa: o de Dilma e o de Plínio. Se não votarmos em Dilma, pode ser porque o PMDB está ali pertinho, ou por isso e aquilo, agora, por que não votarmos em Plínio? Será porque ele não é lá tão bonitinho?! É, vai ver seja isso.

Marina é ótima para a foto e melhor ainda para o travesseiro de quem se encanta com os sinais do avanço econômico, social e político brasileiro, mas que não quer sujar as mãos elegendo Temer para vice presidente. Concordo que não seja fácil fazê-lo. Porém, analisando os dados, vejo ser infinitamente pior entregar uma grama a mais de poder nas mãos de quem hoje tem rodeado a Sra. Marina Silva, inclusive seu vice. Pena, porque gosto dela. Pena, mil vezes pena. Contudo, tudo indica que assim o quis o Deus dela. Então, que assim o seja.