terça-feira, 7 de maio de 2013
Sobre o caso do estuprador "menor", do ônibus no Rio de Janeiro
Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente, são três as medidas socioeducativas, sendo duas delas privativas de liberdade.
Uma, a medida de Semiliberdade, é de privação parcial: o jovem dorme e se alimenta em uma casa e ganha o direito de frequentar escola e trabalho. A outra, de internação, é de privação total.
A lei realmente estabelece que a privação na exceda três anos, mas ela autoriza a progressão da medida, podendo, com isso, o jovem sair de um regime de internação para o de semiliberdade, permanecendo sob medida socioeducativa até que complete 21 anos (Art. 121, parags. 4º e 5º). Caso haja reincidência, ou qualquer outro motivo que o justifique, o adolescente retorna, por ordem do juiz da infância, à internação.
Muito provavelmente, em se tratando de um jovem com antecedentes e contumaz na prática do estupro, ele ficará internado por três anos e progredirá à semiliberdade e, também por esta medida, ficará monitorado 24 horas por dia, até os seus 21 anos.
Depois desta idade, ele poderá ainda ser admitido em alguma instituição de tratamento psiquiátrico, caso a justiça se convença de que ele seja portador de um distúrbio que coloque a vida e a incolumidade de outras mulheres em risco. Assim, ele poderá passar a vida sob o olhar do poder judiciário. O mesmo vale para assassinos contumazes, independente da idade.
Se ele tem hoje 16 anos, supondo que continuará sob medida privativa de liberdade até seus 21, serão ao todo cerca de cinco anos. Somente a título de comparação, a pena por estupro a um indivíduo adulto varia dos 6 aos 12 anos de privação de liberdade.
Ainda que o ECA entenda a criança e o adolescente como 'seres humanos em desenvolvimento', ele não 'passa a mão' sobre a cabeça dos jovens que cometem atos infracionais de gravidade.
Fazer supor que haja alguma condescendência do Estado em relação aos maus atos de meninos e meninas com menos de18 anos de idade é um equívoco que precisa ser corrigido, para que o debate sobre a violência que envolve estes jovens seja recolocado em termos justos, por meio de abordagens honestas.
quinta-feira, 14 de abril de 2011
Homofobia à brasileira
"O amor que não ousa dizer seu nome" é também o amor do qual eles não ousam dizer o nome: nesta matéria, falta a palavra homossexual. Ela fica implícita na fala de Michael Santos e na citação ao tipo de discriminação sofrida por ele, descrita no trecho da nota do seu time, lida pelo repórter. Aliás, esconder o preconceito sob espessas camadas de 'cordialidade' é uma das marcas da brasilidade, conforme descrito na obra de Gilberto Freyre.
![]() |
| Uma das faces da hipocrisia: Bonner imita Clodovil, em intervalo do JN |
Ao se fazer indiferente ao teor social do problema que toca os direitos civis do atleta ofendido por um enorme e heterogêneo grupo de torcedores do time adversário, em função de uma característica pessoal, remetendo a questão ao foro esportivo, o telejornal desumaniza os dilemas de todos os homossexuais e oferece munição àqueles que pretendem diminui-los, isola-los, ou elimina-los.
Michael Santos torna-se, nas entrelinhas da matéria, um entrave político ao seu time, frente à torcida do Cruzeiro. Problematizar a causa social, individualizando-a e a mergulhando num contexto apartado da seara Pública, elimina dela toda a urgência na reparação dos danos e a minimiza, frente às questões prementes, a serem tratadas no restante da edição do jornal.
![]() |
| Nasce um herói! |
Aos "Simpsons" ficam as alternativas de confirmar seus próprios preconceitos, ou de questionar o direcionamento da matéria e defender o jogador, já que os "Simpsons" nem são mais tão Simpsons quanto eles os julgam e já vêm lhes dando as costas e os ignorando veementemente.
É relevante a abordagem desta sutileza ignobil do Jornal Nacional, visto que revela a persistente hipocrisia de uma classe média amedrontada por um 'mundo' que sai cada vez mais do controle estrito de sua religiosidade, moralidade ou 'bons costumes'. A síndrome desta classe social é idêntica - e talvez interligada - à que acomete a rede Globo, daí a necessidade de esconder, em um texto lacônico e insidiosamente hipócrita e irresponsável, o nome da orientação sexual de Michael Santos. Este, sim, um super homem que, com coragem e dignidade, disse o nome do amor que sente. Entretanto, William Bonner não se dignou a pronuncia-lo e nem deixou que alguém o fizesse, ao longo de mais uma infame e desfavorável edição de seu telejornal.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
A Senhora do telejornal

Em relação à série de entrevistas com os presidenciáveis do Jornal Nacional, cumpre ao bom observador, sem ignorar a performance 'programada' do publicitário William Bonner, reparar em como a jornalista Fátima Bernardes assumiu, magistralmente, a personalidade de uma Senhora colonial, ciosa, acima de tudo, em defender seu lar e seu casamento do mau julgamento público e da perda de algum bem financeiramente mensurável.
A 'Senhora', no período colonial brasileiro - e, claro, ao longo de largos anos dos séculos XIX e XX - deve ser tomada como uma figura central para se entender os arranjos de poder que circundavam a "Casa Grande". A presunção de coadjuvância apenas prejudica a percepção, tanto de seu papel de mediadora informal de conflitos, como de seu exibicionismo consentido durante as confrarias, quase como uma afirmação estética do poderio do marido frente aos demais homens e mulheres.
Trata-se de uma tradição forjada, no Ocidente, pelas cortes germânicas, que as luso-ibéricas importaram sem a mesma sutileza. Certa promiscuidade permeava o uso que se fazia do sexo feminino, nos banquetes e nas reuniões de negócios nas 'novas aristocracias' luso-iberoamericanas. O principal papel da mulher, da Senhora no caso, nunca esteve circunscrito à cozinha, mas sim à comunicação entre os interesses domésticos e os interesses externos, conduzidos fora da casa pelo marido.
Trazer os negócios à casa fazia com que a mulher interferisse nas negociações e nos processos. Nos encontros e bailes, por exemplo, o machismo era assumido pela esposa, que caminhava entre os homens com desenvoltura, deixando para trás o perfume da casa e explicitando, a seu modo, ou ao modo que se esperava dela, quais eram as vontades do homem que, por trás, a comandava.
No século XXI, entretanto, ainda se vê algumas mulheres comportarem-se como Senhoras coloniais. Vestidas a caráter, perfumadas e garbosas, deixam-se utilizar pelos homens, cujos desejos escusos, ao final, a elas também interessam.
Em miúdos, a mulher brasileira colonial era, tal qual Fátima Bernardes o é, uma mulher tutelada, cuja performance servia para garantir apenas que fosse feita a vontade de seu dono. Os vídeos a seguir demonstram a repetição desse estado de coisas em pleno Século XXI, na pessoa da Sra. Bonner.
Observemos Fátima Bernardes.
A ordem nesta entrevista era de sabotagem. O marido veio com toda a força, iniciou o debate agressivamente, tentando, emprimeiro lugar, despesonalizar a candidata Dilma. Seguiu, insistente, o seu objetivo de equipará-la a um embuste, chegando a insunuar sê-la "tutelada" pelo presidente Lula. Era preciso imprensá-la e o marido seguia por esta via, interrompendo-a com violência.
Fátima interpelou-a aos 2'45", referindo-se a "muitos críticos" de um tal "temperamento difícil". Repare que, na resposta, Dilma voltou a se defender, visto que, com charme, Fátima quis apenas manter o centro da conversa na desqualificação da candidata. Não há lealdade de gênero nas relações que a Senhora colonial precisa manter com outras mulheres fortes, provenientes de "espaços sociais" distintos do seu. N'alguns casos, o contato era bastante áspero. A tarefa desta Senhora Bonner era justamente desqualificar Dilma em sua feminilidade.
Nos 4'02", ela voltou a usar de eufemismos, até trazer à mesa o termo "maltratar", no que Dilma entrou no âmbito doméstico, e se fez entender pela jornalista. Aos 5'12", o marido começou a tentar contradizer a candidata, para depois sair pela tangente, quando esta lhe 'deu um caldo'.
O marido seguiu reiterando grosseria, animosidade e ignorância. Soou patético, ao carregar o sotaque para se referir aos BRICs.
Fátima reapareceu nos 10'07", numa cena que ficará marcada no jornalismo brasileiro. Ela se voltou ao marido e, com candura, pediu-lhe "só um minutinho", como que lhe impedindo de colocar tudo a perder, com sua evidente e pueril irritação. As Senhoras coloniais continuam servindo muito bem a isso: aplacar os ânimos dos maridos, gerir suas emoções, feito mães.
Passando a mão esquerda pelos cabelos, aos 10'15", Fátima tomou a palavra e encaminhou-se para um precipício argumentativo de onde não conseguiu mais sair.
O casal perdeu este 'negócio' para Dilma, porém Fátima Bernardes cumpriu seu papel: impediu que a conversação descesse ao nível da raiva implacável que seu marido expôs publicamente, ao longo de todo o baile.
Sigamos a dama.
Primeiro, é necessário falar sobre Marina Silva neste evento infeliz para ela. Corajosa e digna, porém pareceu-me ingênua.
Ela figurou num papel que este casal ridiculariza: o da mucama que se envolveu em assunto de patrões. Veja que Fátima já começou interpelando a acreana, se o eleitor se convenceria de que sua candidatura "é pra valer", ou se "serve para marcar posição", esta relativa ao Meio Ambiente.
Um dos mitos sobre as classes pobres mais propalados é a associação de seus representantes políticos com políticas não-econômicas ou, por vezes, economicamente incômodas à aristocracia. Marina tinha como vice o dono da empresa Natura, sobre a qual recaem, inclusive, denúncias de sonegação de impostos. Assim, a pergunta de Fátima pode ser traduzida por: 'acha que meu marido e seus pares se deixarão intimidar por essa sua aventura?'
Aos 02'07", o marido lembrou referiu-se à solidão institucional da candidata. Cinicamente, esqueceu-se da cobrança sobre alianças que fez à Dilma Rousseff na noite anterior. Marina, coitada, não percebeu que os tons de voz e os gestos do casal eram-lhe humilhantes e a lançaram no limbo do descrédito e, nas entrelinhas, equipararam-na à escrava insurgente, à mucama rebelde, que deve ser recolocada em seu lugar de origem.
Ao questionar seu posicionamento ético no "epísódio do Mensalão", o marido quis, desta vez hipocritamente, descredenciar a convidada, amarrá-la e rebaixá-la, num ato análogo a uma surra.
Fátima permaneceu calada, durante o açoite a Marina. Não convém a uma Senhora entromenter-se no castigo de uma escrava de cristas largas.
Então a Senhora, aos 10'16", questiona sobre a falta de eficiência de Marina durante sua gestão no Ministério do Meio Ambiente. A convidada não percebeu o embuste da Senhora que, ao lhe dar o último gole d'água deu-lhe, na verdade, uma mistura forte de vinagre e sal.
Ao longo de 12 minutos, Marina foi usada para atacar seu antigo partido político, cumpriu o script pre-estabelecido pelo casal e saiu machucada do encontro - capturada e surrada, no tronco, conforme o planejamento da Casa Grande.
Até que ocorre a confraria e a Senhora se sente à vontade.
Neste evento, a senhora utilizou de todo o seu charme caricato para encantar o convidado e, assim, tentar contaminar com seu encanto todo o público (tele)presente.
Este foi o encontro dos amigos, para selar a parceria e para congratularem-se. Lá estava a Senhora transitando lânguida, sedutora, entregue aos 'mandos' do convidado ilustre, de modo a cumprir o desejo do marido, qual seja, demonstrar todo apreço da casa por sua presença.
Não há o oferecimento do seu corpo, porém vemos claramente que ela é um presente a ele entregue, com desvelo. A mulher despersonalizada, subjugada por uma mão masculina ao seu lado, a mercê de seus interesses, parcialmente dona de sua vontade, delegada dos direitos do macho, seduz um outro macho, mantendo dele uma distância confortável porém nada discreta. Suscitar a traição somente sublinhariam a parceria firmada entre os dois homens ali presentes.
A esposa, rica, culta e, portanto, aristocrática, tal qual uma mulher colonial das classes altas, em pleno século XXI, ao vivo, para todo o Brasil. Espetáculo ignóbil!
Fátima Bernardes talvez não tenha se atinado para isso, todavia é evidente: 'o império' desta senhora já passou, sua figura feminina não condiz com as aspirações da maioria das mulheres jovens, no Brasil emancipado.
Sobre os convidados à casa dos Bonner, digo apenas: Dilma está no caminho certo, Marina precisa tratar seus complexos de inferioridade e José Serra deve parar de acreditar que a Casa Grande é maior que a praça da cidade que ele finge enxergar.
terça-feira, 20 de julho de 2010
O drama como jornalismo
Diz-se hipócrita o dissimulado, que finge possuir crenças e valores que realmente não tem; cínico, por sua vez, é aquele que não tem empatia, descarado, sem pudor frente o sentimento e razões do alheio.
Diante destas breves definições, fica-me a dúvida: o jornalismo daquela facção que chamei Mídia Direitola, composto basicamente pelas Rede Globo e Bandeirantes e pelos periódicos dos Grupos Abril, Folha e Estado de São Paulo, é cínico ou hipócrita?
Na busca de uma resposta, ainda que parcial, vou destacar o Jornal Nacional de hoje. Eu poderia comentar o editorial da Folha, o que me levaria, provavelmente, a um mesmo resultado. Porém, muito já foi dito sobre isso (exemplos: aqui e aqui).
Considerei exemplar o episódio de hoje deste seriado, chamado há tantos anos Jornal Nacional, que já tem se tornado o mais longo da televisão brasileira. Estrelado por um casal que, de vez em quando cede lugar a outro casal, como hoje, ou a uma dupla masculina multi-étnica.
Vou descrever quatro 'cenas', como se fossem de um programa ficional, tanto para vestir o meu texto com certo "cinismo", como para poder traduzir as intenções do autor do drama, por trás das "informações" de cada fala, especialmente as dos narradores remotos, na bancada, distantes do local onde ocorre a cena, e as dos narradores presenciais.
Cena 1 - Quem pegou a gravação com o relato do "assassino"?
São 4'56" de desenvolvimento da trama anunciada no capítulo anterior, apresentando o ocorrido no fim de semana. O suspense gerou um fato novo e resta descobrir quem roubou o vídeo e o exibiu. Teria sido vendido por Ana Maria e Alessandra, ou serão elas tão vítimas quanto Eliza? Por que Marco Antônio as expulsou da corporação, estaria ele acobertando com isso o delegado Edson, verdadeiro contrabandista do arquivo videográfico? estas não são as perguntas cruciais, embora as falas dos narradores levem o público a se ocupar delas.
Veja que a história parece ter ficado intrincada, mas é um artifício corriqueiro da dramaturgia para televisão, onde o drama ocorre em meio a uma enorme rede de tipos.
Este homem falastrão e de expressão arregalada, que passa a dominar a cena e que foi o designado a mostrar o vídeo, passa a ser figura central para o desembaraço dos acontecimentos. Portanto, a frase dos narradores, "O diretor-geral, delegado Marco Antônio Monteiro, determinou que a Corregedoria Geral de Polícia apure em 48 horas a responsabilidade pelo vazamento do vídeo", é cínica e serve apenas para confundir o público. Nada mais que isso, afinal, não seria esse novo personagem a chave para se decifrar o mistério sobre quem contrabandeou o vídeo? Afinal, quem lho entregou.
Há quem saiba mais sobre a trama que os narradores: o próprio autor. Ele que oprime o personagem, por ser dele um deus. Dono das suas alegrias e angústias, esse criador é cruel e, portanto, é cínico. Os personagens dissimulados, como estes narradores e o homem falastrão, são hipócritas. Não são donos da verdade e apenas fingem que o são. Estão a serviço do onisciente narrador, que conhece o desfecho da trama.
Cena 2 - O imperador restringe ainda mais a entrada de ex-colonos incivilizados
Esta cena é ainda mais elucidativa do lugar da hipocrisia e do cinismo neste drama. Os narradores, remotos e presenciais, fingem que isto não lhes diz respeito, vestem-se com as roupas do imperador, deixam-se contaminar por sua doença. Acima deles, o cinismo do seu líder, traduzido na primeira linha (nota-se que sãos os narradores remotos os que são designados a repetirem ipsis literis a intenção do autor. Embora hipócritas por natureza, assumem o cinismo, como marionetes do dono do drama):
" O governo dos Estados Unidos anunciou que vai mandar soldados para reforçar a segurança na fronteira com o México. A decisão foi tomada depois de mais uma chacina no país vizinho provocada por traficantes de drogas."
Cinismo! Sabem que os verdadeiros assassinos são os soldados do imperador. Os colonos incivilizados morreram em nome do triunfo do império - somente este lucra com tudo isto, o enredo é sobre esta ignomínia. Este viés do cinismo expresso pelo narrador é o que ajuda a encher a trama de vigor e a esconder a presença onisciente do autor.
O narrador em cena diz: "A polícia diz que é mais um ataque resultado de uma violenta disputa entre traficantes de drogas, que se intensificou nos últimos três anos e meio, depois que o governo do México decidiu enfrentar as quadrilhas." Hipocrisia!
Mais adiante: "Nos últimos três anos, a polícia já apreendeu 75 mil armas e pôs na cadeia 78 mil pessoas. Mas os ataques frequentes das quadrilhas mostram que a guerra ao tráfico no México está longe de acabar." Hipocrisia!
E, finalmente, o clímax da cena: "Essa nova onda de assassinatos teve reflexos também nos Estados Unidos. Nesta segunda, o governo decidiu reforçar a fronteira com o México e vai enviar para lá a partir de agosto mais 1,2 mil soldados da Guarda Nacional, que vão ajudar no combate à imigração ilegal e ao tráfico de drogas." Hipocrisia! É por esta dissimulação em omitir que conhece o resultado do conflito que o autor utiliza os personagens para anunciar as cenas dos próximos capítulos, deixando o público em suas mãos, continuamente.
Cena 3 - O reaparecimento do 'miquinho'
Apenas uma cena de passagem, em que a narradora expressa, sem muita maestria, a sua hipocrisia. A frase, "A expansão das plantações de chá no país é apontada como responsável pela quase extinção desse primata", dssimula sobre a responsabilidade do opressor, sujeito oculto na história. Ela sabe de quem eram as plantações de chá, mas não quer que o público desperte seu ódio para com este antagonista, como seria natural. Faz isso, para preservar a continuidade do drama. Obedece ao cinismo do dono desta ficção. Um autor maniqueísta preserva com mais veemência a integridade de seus vilões.
Cena 4 - A floresta vazia e o caboclo ludibriado
Aí está um modelo típico de anuência cordata entre narrador e autor. Simbiose quase perfeita, tentam expressar compaixão pelos personagens do drama, com o fim de enganar o público. No fundo, os odeiam.
""Quando falamos de Amazônia ligamos à natureza. No entanto, 70% da população da Amazônia mora na cidade"", José Ademir foi vilipendiado, como o foi Pedro Pntes, quando disse: "“Eu me considero um homem da floresta. A diferença só que nos mora na cidadezinha”". Ambos foram chamados de tolos, toda a trama serve para desnudá-los, extrai-los do seu campo de verdade, torná-los heróis de fachada, tal qual a floresta retratada.
Aqui estãoos verdadeiros heróis, adornados por suas sagas fantasiosas: "Os primeiros a enfrentar essas poderosas regras da natureza foram os portugueses, a partir do século dezessete", diz o narrador, e é quando ele asfixia Pedro Pontes, José Ademir e também o prefeito, Raimundo. Extraem destes e dos demais coadjuvantes a propriedade histórica de suas ações.
E o cinismo escondido, sorrateiramente mantido pelo autor, entre as palavras do narrador presencial, este também um enganado: "A floresta começou a ser derrubada e novas cidades surgiram por outros interesses econômicos. Para as madeireiras, floresta era só matéria prima. Para a pecuária e a agricultura em larga escala, um obstáculo a ser removido da terra". Percebe a ignomínia na afirmação quase insultosa?
Cinco minutos de um destempero perigoso para o desenvolvimento do drama: posicionar-se tão ao lado da vítima, a ponto de quase obscurecer a figura a ser obliquamente enaltecida e da qual se extrairá a lição final da tragédia.
Este seriado, diga-se uma verdade sobre ele, prima por manter um 'truque' dramatúrgico singular: a verdade é como que hipnoticamente sublimada da vontade do narrador. Ele apenas narra, apaga-se, empresta-se completamente ao drama. O autor opera por ele sua sanha moralizante, neste tipo de encenação.
No caso desta cena 4, e talvez em todo o episódio, o protagonista inaugurou sua glória há cinco séculos. Tanto o autor, como os narradores, servem-lhe de escudo. O cinismo do autor está em conhecer esta verdade e dissimulá-la, sem compaixão.
A hipocrisia está em quem, por dinheiro ou fama, intercede em seu nome e embebeda o público com uma artimanha de linguagem, que o engana e o faria achar cada dia este seriado o mais inebriante, porém, dada sua repetição e obviedade - e pela falta de talento dos narradores substitutos do casal central - estas artimanhas de ludirio estão chegando ao seu ponto de falência.
Não lhe restarão outra saída, senão substituírem a ficção por um jornalismo honesto e reto.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
A face do desrespeito aos jovens
Foram derrubados e pisoteados todos os preceitos éticos que devem pautar a prática jornalística, assim como tem sido absolutamente questionável a atuação de um delegado mineiro, responsável pela investigação. Não vou tecer maiores comentários sobre isso, mas apenas analisar a quase histeria em torno deste caso, que já toma, a meu ver, ares de uma brutal insanidade coletiva. Uma boa amostra desta violência praticada pelos veículos de comunicação e pela polícia surge no vídeo abaixo, especificamente a 0'24'', quando uma certa imagem é sorrateiramente revelada ao Brasil:
Sim, mostraram o rosto do adolescente que participou deste crime e que o atesta por seu depoimento decisivo. E ao fazê-lo, a Rede Globo demonstra duas facetas de sua ignomínia: o desrespeito às leis e às autoridades e a sanha de fazer dinheiro com a alimentação de mórbidas curiosidades do telespectador.
O Estatuto da Criança e do Adolescente é claro ao exigir a preservação da identidade de indivíduos com menos de dezoito anos de idade, especialemte em situações que os exponham a constrangimentos ou a quaisquer outros tipos de risco à sua integridade moral e física. Ao exibir o rosto deste jovem, a Rede Globo, em horário "nobre", o lançou definitivamente ao inferno do julgamento público, o desrespeitou e o desdenhou, de modo a intensificar, dentre outros mitos infames, a teoria de que se faz necessária a redução da maioridade penal.
Todavia, pelo tipo de participação deste jovem, fica claro que ele foi levado ao ato pela influência que certamente seu primo Bruno exercia sobre ele. Um adolescente, por mais envolvido que esteja com a criminalidade, é um sujeito em formação e relativamente incapaz de prever as consequências dos seus atos. É nisso que a nossa Legislação acredita e, neste ponto, ela tem meu apoio.
Sei que é fácil a contestação desta tese pelo senso comum. Eu mesmo fui um adolescente que amadureci muito cedo, que me considerei senhor de minhas escolhas lá pelos catorze anos. Contudo, mais velho, eu percebi que o que eu tinha era informação, não discernimento. Sei que, em sua maioria, os jovens possuem informações suficientes sobre o mundo à sua volta, porém estas informações pouco lhes servem cotidianamente como parâmetro para a tomada de decisões, uma vez que, antes delas, temos as configurações familiares e as dificuldades da vida que interferem sobre os seus olhares e os fazem julgar equivocadamente os fatos que se lhes apresentam.
Em meu trabalho junto a adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa de Semi-liberdade, conheci dezenas de jovens. A maioria deles envolvidos com o tráfico de drogas, seja por meio da distribuição ou do furto para fins de consumo de crack. Outros envolvidos em agressões ou infrações contra a ordem pública, além de alguns homicidas. A maioria deles é, entretanto, vítima de um sistema social que os oprime e isola.
Sou categórico ao dizer: a minoria comete atos infracionais por ter o temperamento voltado à pratica de atos violentos; para a maioria dentre os que eu atendi, a violência é um elemento do discurso que viabliza sua inclusão entre os fortes e os temidos, de modo a escamotear seus sentimentos de inferioridade, que lhes foram inculcados desde a infância pela visão de sua própria miséria econômica e de sua exclusão social, e corroboradas pelos símbolos midiáticos que pululam em suas consciências fragilizadas.
A não ser que sofra de um distúrbio de personalidade, ninguém escolhe pegar numa arma e ferir ou matar alguém. Esta decisão é, via de regra, permeada por um sistema de crenças que a justifica e que faz dela uma ação inevitável. Um adolescente que pega numa arma para tal fim deve ser avaliado tendo em vista o papel que exerceram sobre ele a família e a sociedade para, somente a partir daí, se perceber o quanto sua atitude está ligada ao seu temperamento ou enquadrada numa rede obtusa de conceitos distorcidos a ele apresentados, seja por um Estado ausente, por uma sociedade discriminatória, por uma escola ineficaz, ou por meios de comunicação amorais.
Ao revelar ao Brasil o rosto desta vítima, a Rede Globo - e não apenas ela, diga-se, mas ela com maior impacto - expressa todos os elementos que perfazem sua ideologia, expressa em sua programação. Ideologia esta criada a partir do maniqueísmo que estimula a perveção e o abandono de valores como a solidariedade.
A utilização do termo "menor" para se eferir a adolescentes pobres ou infratores (pobres), em contraponto aos dolescentes dos programas de tv, é uma das marcas desta açao discriminatoria.
Ou há quem acredite que a novela "Malhação" contempla a vida de jovens como este? Adolescentes absolutamente vulneráveis à influência de primos ricos e famosos que conseguiram escapar da divisão injusta e arbitrária, entre ricos brancos e pobres pretos, que forma o cerne da "Malhação", do "Xou da Xuxa", do "BBB" e do "ti ti ti". A Rede Globo, cinicamente, ri da desgraça deste jovem que ela, junto com todo o grupo de forças que o vilipendiaram, ajudou a se estabelecer na vida dele.
As autoridades que se expõem a este circo macabro dançam a valsa imposta pela emissora dos Marinho. O promotor da Infância e da Juventude chega a ser desmentido pela repórter. Ele, infeliz por se propor a confirmar categoricamente o que lhe havia dito o jovem e ela, atendo-se aos documentos dispobibilizados pela polícia carioca, chama-o implicitamente de idiota, ao mostrar que o adolescente se contradisse no depoimento a ele.
Vê o quanto isso é grave?! Quando, meu Deus, promotores, delegados e juízes deixarão de entender a imprensa como um tal "Quarto poder" e a considerar que, para a opinião pública, assim como para a República, mais vale a lisura do resultado de seu trabalho, do que sua coadjuvação em reportagens impregnadas de tempero ideológico nocivo à necessária revisão de nossos valores, para que nossa sociedade passe cada vez mais a respeitar como tesouros, tanto "os comentários desconcertantes das criancinhas", como os velhos, que vão "perdendo a esperança".Triste visão: a face deste pobre adolescente! Não deve haver lugar para tamanho desprezo aos Direitos da Criança e do Adolescente. E depois os radicais estão do lado de cá.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Discurso arrumado e o linguarudo
A escalada: Chavéz "desagregador"; desconto aos "verdes"; Carlos Sardenberg: "todos os países aumentaram seus gastos. Uns bem, outros mal. No caso brasileiro, mal"; Venezuela no Mercosul, com Heraldo Pereiran - não me lembro do comentário deste jornalista. Jabor cita Nelson: "sentar na calçada e chorar lágrimas de esguicho".
A imprensa direitola sempre se diverte quando pensa: "hum, pegamos eles!" Eles, quem? Fingem nada saber sobre os deles, vociferam, são injustos e distorcidos. O pior, mentem mal. Digo serem categoria em via de extinção.
Não que isso garanta um mundo melhor, porém nos protege de Heráclitos Fortes destilando um veneno medonho acerca de preconceito, machismo nocivo e ultrapassado.
Eduardo Suplicy é um político para além de Heráclito, é o contraponto burguês às práticas clientelistas ou coronelistas, de oportunistas distribuídos por todas as instâncias políticas nacionais.
Na continuação desta edição do telejornal mais francamente comprometido com a direitola na Rede Globo atualmente, senti uma animosidade para com Obama, numa breve exaltação da "oposição". São defensores do interesse privado, porém não são eles todos burgueses, pois não?
Os plebeus "hiperburgueses" "orgânicos" do discurso neoliberal parecem pulhas. Merecem, sim, ser humilhados por Gilmares e Williams.
domingo, 4 de outubro de 2009
A crise em Honduras, segundo a Globo
Menos, menos
Bem, este pequeno texto, acompanhado de link para a reportagem do Jornal Nacional, esclarece bem a agenda da emissora acerca do golpe militar em Honduras. Ao repetir termos como "presidente deposto" e "governo interino", os repórteres assumem a concepção direitola e desrespetosa para com as instituições democráticas.A Globo, a Globo News e o G1 mostraram “imagens exclusivas” da Embaixada Brasileira em Tegucigalpa. Exagero. Poderiam ter usado imagens com qualidade bem melhor dos cinegrafistas da AP e da Telesur, que estão aqui desde a chegada de Zelaya e enviam material diariamente. O acesso da imprensa à embaixada é praticamente impossível, estamos realmente sitiados aqui, mas não há o grau de isolamento que a câmera tremidinha dá a entender. Sempre houve uma quantidade razoável de jornalistas acampados aqui com Zelaya, incluindo as maiores agências do mundo, Reuters (só foto) e AP (foto e TV).
E foram justamente os jornalistas que aparecemos nas imagens divulgadas, embora todas as descrições falem de “seguidores usando computadores onde fazem campanha para a volta de Zelaya ao poder”. Não há nenhum assessor do Zelaya ali. O Rodrigo Lopes, repórter da RBS que continua aqui, poderia ter sido consultado.
Por outro lado, não podemos negar que a Folha de São Paulo também trabalhou nesse sentido. Assim, pergunto-me: em quantos dias o Fábio estará desempregado?
Link para o canal do Nassif: O padrão Kamel de jornalismo
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Comentário geral ao JN de hoje
No mais, norte-americanofilia (esta mania em se referir aos "americanos' merece um artigo) e inversão de valores - onde já se viu minimizar tanto o problema brasileiro em Sta. Catarina?
Sobre a candidatura do Rio às olimpíadas de 2016, otimismo discreto e promessa de cobertura integral amanhã.
Outro ponto interessante foi a pequena nota sobre a CPI da corrupção no Rio Grande do Sul. Pouca informação, nenhuma fala de qualquer envolvido, ou da oposição no estado. E uma frase que eu adorei, dita pelo Bonner: "todos os deputados presentes à sessão eram da oposição". Fala a sério, WB?!
Outro assunto para artigo: como pode um Jornal tão rápido e rasteiro ter tanta influência sobre o brasileiro médio?



