Há uma verdadeira cultura do ódio instalada e aceita no Brasil e é preciso que a sociedade brasileira inicie imediatamente uma reflexão responsável sobre tudo isto. Em um mês, ao menos dois inocentes foram mortos por linchamento.
Eu tenho vergonha disso, mas vou repetir o que eu disse, em outros termos: NÓS MATAMOS DOIS INOCENTES. Nós os espancamos até que morressem.
Não é apenas uma força de expressão, este NÓS. Temos deixado passar incólumes inúmeras manifestações diárias de ódio nos meios de comunicação, nas igrejas fundamentalistas, no Congresso Nacional, nas vizinhanças mal informadas, nos telejornais e em toda a imprensa.
Esses "atores" e "atrizes" vêm plantando no senso comum um conjunto de ideias descabidas, sem que as organizações, governamentais e não governamentais, se posicionem firmemente e, principalmente, atuem para PUNIR esta quadrilha de insufladores da violência. São estas manifestações que alimentam o instinto linchador que tanto tem nos envergonhado e entristecido.
Enquanto "convivermos" com isto seremos CÚMPLICES desta absoluta barbárie em nosso país.
Esse ódio tem diversas faces, todas monstruosas. Ele se manifesta nesses linchamentos/justiçamentos, porém ele também está presente em outros aspectos de nosso cotidiano. Por exemplo, na misoginia, na homofobia, no racismo, na criminalização dos movimentos sociais em defesa dos direitos humanos e, também, na incessante disseminação de mentiras e informações distorcidas sobre a realidade brasileira.
Juntos, esse bolo fétido de palavras de má-fé causa a sensação de pânico e de desesperança nas pessoas mais propensas a essas influências, ainda que a vida material esteja melhor.
Por isso, há sangue nas mãos de governantes, de pastores, de promotores de justiça, de juízes e demais operadores do Direito, de lideranças sociais e partidárias.
Todavia, principalmente, há sangue nas mesas de direção da Rede Globo, da Veja, do SBT, da BAND e da Folha, que dão espaço a mentes criminosas, pagas para propalar distorções as mais graves e de nos colocar contra nós mesmos.
Esta gente PRECISA SER PUNIDA. Eles têm sido muito maus para o Brasil e eu me pergunto se precisamos mesmo conviver com suas ações espúrias, disfarçadas de "liberdade de expressão". Que "liberdade" é esta, que cria hordas de assassinos??
Conclamo o Ministério Público, a OAB e todos os movimentos sociais, igrejas, partidos, desde que imbuídos de boa fé, para que intercedam, antes que afundemos de vez na enorme poça de sangue que impunemente cresce a cada dia.
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segunda-feira, 5 de maio de 2014
Matadores?
Sou de uma sociedade de matadores? Nós, brasileiros/as, somos assassinos/as?
A história se repetiu: turba de assassinos/as, "gente de bem", "justiceira", cerca e espanca Fabiane Maria de Jesus até a sua morte, por SUSPEITAR se tratar de uma sequestradora de crianças para fins de magia.
A suspeita surgiu aqui, no facebook. Entretanto, já se sabe que era apenas um BOATO infundado e que a pobre mulher sofria de doença mental.
Abre-se um novo buraco em mim...
A história se repetiu: turba de assassinos/as, "gente de bem", "justiceira", cerca e espanca Fabiane Maria de Jesus até a sua morte, por SUSPEITAR se tratar de uma sequestradora de crianças para fins de magia.
A suspeita surgiu aqui, no facebook. Entretanto, já se sabe que era apenas um BOATO infundado e que a pobre mulher sofria de doença mental.
Abre-se um novo buraco em mim...
terça-feira, 16 de abril de 2013
Porque Sou Contra a Redução da Maioridade Penal
Eu trabalhei numa 'casa' criada para o cumprimento de medida socioeducativa de semiliberdade por adolescentes infratores, efetivando uma norma do Estatuto da Criança e do Adolescente, em Vitória da Conquista, na Bahia, entre 2009 e 2010. Atuei junto a jovens de 12 a 21 anos, que haviam cometido atos infracionais de média e alta gravidades.
A realidade destes jovens que conheci por meio deste trabalho é-me muito reveladora de como o contexto a que crianças e adolescentes econômica e socialmente vulneráveis estão submetidos sofreu o irreparável impacto da falta de políticas públicas sociais voltadas à infância nos anos de 1980 e 1990, enquanto as grandes cidades se abarrotavam e o tráfico de drogas passava a comandar enormes áreas urbanas, de modo a ser, muitas vezes, o único 'empregador' de famílias inteiras.
Na medida em que este favorecimento pelo tráfico mostrava sua face nefasta, com a morte de irmãos e irmãs precocemente envolvidos pelo crime, as comunidades passavam a se organizar e, especialmente a partir de 2005, com a criação do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), com o aprimoramento do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), com os mais diversos programas de transferência de renda e, mais tardiamente, com o crescente comprometimento dos governos estaduais, responsáveis diretos pela implementação das ações punitivas previstas pelo ECA, o Brasil passou a conhecer o 'pano de fundo' da violência que tem no adolescente pobre e infrator sua primeira vítima e, depois, extrapola pelos bairros de classe média e pelas telas de tv.
A minha experiência no referido trabalho mostrou-me que uma ínfima maioria daqueles jovens eram punidos por homicídios e latrocínio, sendo que, dentre estes, o tráfico era a razão imediata pelo seu envolvimento em atos de tamanha gravidade. Conheci apenas um jovem, meu xará inclusive, com 17 anos que, friamente, confessou 3 latrocínios sem esboçar qualquer arrependimento. Para jovens como este, a justiça sempre teve meios de evitar reincidências, visto que a nossa legislação reconhece institutos que retiram direitos a doentes mentais perigosos.
A grande maioria dos meninos e meninas que chegavam ao Ministério Público e à Vara da Infância e da Adolescência (em Vitória da Conquista, ambos os órgãos já eram especializados) e que, em algum momento, passavam pelo meu conhecimento, estava comprometida pela dependência do crack ou já vinha acometida de sérios transtornos mentais provocados por razões íntimas ou pelo abandono familiar e pela falta de acesso a serviços básicos de saúde e de educação, estes capazes de identificarem o mal e o tratarem correta e precocemente.
A meu ver, nós sequer aplicamos o ECA em sua amplitude e ainda não vencemos a luta contra o tráfico de drogas, no sentido de conseguirmos proteger as crianças de meliantes que as usam para a venda e para outros 'serviços' terríveis associados a ela. Vale lembrar que o crack atualmente avança pelo interior, de modo a se tornar num verdadeiro problema de saúde pública, além de um problema de segurança pública.
É previsível, após o ECA passar a ser implementado como deve ser, a diminuição do número de atendimentos a jovens cometedores de infrações de alta gravidade e, provavelmente, estas condutas criminosas ocorrerão por motivações outras, que não a completa ineficiência estatal para dar conta dos problemas sociais que colocam a droga e o tráfico como alternativas de amadurecimento para tantos dos nossos jovens pobres - e não apenas os pobres, diga-se, embora estes sejam os mais atingidos pelas mazelas de nosso mundo desigual.
Se, por acaso, se conseguir reduzir a maioridade penal antes de as políticas sociais surtirem os seus resultados, teremos, brevemente, a necessidade de nova revisão da lei uma vez que o tráfico alcançaria meninos e meninas cada vez mais jovens.
A redução da maioridade penal não é uma alternativa numa sociedade que há apenas 10 anos vem dando significativas condições para um cuidado efetivo das crianças vitimadas pela exclusão e menos tempo ainda à implementação das medidas socioeducativas do ECA que, dentre outras funções, tem ajudado o Brasil a conhecer o descalabro em que continua a viver parte significativa de nossos jovens, vitimados pela fome, pelo abandono e pelo preconceito.
A realidade destes jovens que conheci por meio deste trabalho é-me muito reveladora de como o contexto a que crianças e adolescentes econômica e socialmente vulneráveis estão submetidos sofreu o irreparável impacto da falta de políticas públicas sociais voltadas à infância nos anos de 1980 e 1990, enquanto as grandes cidades se abarrotavam e o tráfico de drogas passava a comandar enormes áreas urbanas, de modo a ser, muitas vezes, o único 'empregador' de famílias inteiras.
Na medida em que este favorecimento pelo tráfico mostrava sua face nefasta, com a morte de irmãos e irmãs precocemente envolvidos pelo crime, as comunidades passavam a se organizar e, especialmente a partir de 2005, com a criação do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), com o aprimoramento do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), com os mais diversos programas de transferência de renda e, mais tardiamente, com o crescente comprometimento dos governos estaduais, responsáveis diretos pela implementação das ações punitivas previstas pelo ECA, o Brasil passou a conhecer o 'pano de fundo' da violência que tem no adolescente pobre e infrator sua primeira vítima e, depois, extrapola pelos bairros de classe média e pelas telas de tv.
A minha experiência no referido trabalho mostrou-me que uma ínfima maioria daqueles jovens eram punidos por homicídios e latrocínio, sendo que, dentre estes, o tráfico era a razão imediata pelo seu envolvimento em atos de tamanha gravidade. Conheci apenas um jovem, meu xará inclusive, com 17 anos que, friamente, confessou 3 latrocínios sem esboçar qualquer arrependimento. Para jovens como este, a justiça sempre teve meios de evitar reincidências, visto que a nossa legislação reconhece institutos que retiram direitos a doentes mentais perigosos.
A grande maioria dos meninos e meninas que chegavam ao Ministério Público e à Vara da Infância e da Adolescência (em Vitória da Conquista, ambos os órgãos já eram especializados) e que, em algum momento, passavam pelo meu conhecimento, estava comprometida pela dependência do crack ou já vinha acometida de sérios transtornos mentais provocados por razões íntimas ou pelo abandono familiar e pela falta de acesso a serviços básicos de saúde e de educação, estes capazes de identificarem o mal e o tratarem correta e precocemente.
A meu ver, nós sequer aplicamos o ECA em sua amplitude e ainda não vencemos a luta contra o tráfico de drogas, no sentido de conseguirmos proteger as crianças de meliantes que as usam para a venda e para outros 'serviços' terríveis associados a ela. Vale lembrar que o crack atualmente avança pelo interior, de modo a se tornar num verdadeiro problema de saúde pública, além de um problema de segurança pública.
É previsível, após o ECA passar a ser implementado como deve ser, a diminuição do número de atendimentos a jovens cometedores de infrações de alta gravidade e, provavelmente, estas condutas criminosas ocorrerão por motivações outras, que não a completa ineficiência estatal para dar conta dos problemas sociais que colocam a droga e o tráfico como alternativas de amadurecimento para tantos dos nossos jovens pobres - e não apenas os pobres, diga-se, embora estes sejam os mais atingidos pelas mazelas de nosso mundo desigual.
Se, por acaso, se conseguir reduzir a maioridade penal antes de as políticas sociais surtirem os seus resultados, teremos, brevemente, a necessidade de nova revisão da lei uma vez que o tráfico alcançaria meninos e meninas cada vez mais jovens.
A redução da maioridade penal não é uma alternativa numa sociedade que há apenas 10 anos vem dando significativas condições para um cuidado efetivo das crianças vitimadas pela exclusão e menos tempo ainda à implementação das medidas socioeducativas do ECA que, dentre outras funções, tem ajudado o Brasil a conhecer o descalabro em que continua a viver parte significativa de nossos jovens, vitimados pela fome, pelo abandono e pelo preconceito.
sexta-feira, 12 de abril de 2013
Ódio míope
Há um ódio ao Brasil que se expressa por meio de verborragias metralhadas a esmo por pessoas com alguma 'bagagem' intelectual, conhecedoras, ao menos remotamente, da realidades de países estrangeiros; pessoas interessadas em produções artísticas de outras partes do mundo, especialmente a estadunidense e a européia.
São brasileiros e brasileiras que repercutem em seus comentários preconceituosos enganosas noções de identidade 'européia', sempre a imaginarem que "lá" tudo funciona, tudo brilha, tudo está em perfeita ordem. "Lá", para eles, não viveria este povinho, não haveria esta sujeira, esta corrupção, esta realidade. Diante de uma qualquer adversidade midiatizada, repetem a máxima, 'vou-me embora desse fim de mundo'.
Este ódio pelo Brasil é tanto mais forte quanto maior for a articulação do seu propalador com a imprensa cultural. Um teatrólogo brasileiro que tenha conseguido, em algum momento dos anos de 1990, fazer fama entre circuitos 'alternativos' com sua obra experimental à moda novaiorquina, por exemplo, torna-se quase imediatamente um detrator feroz do seu país de origem. Nem precisa ter ficado rico, ou ganhado reputação entre outros circuitos artísticos, além do paulista ou do carioca, para que de sua boca sejam cuspidas ofensas generalizantes dirigidas a todo o 'resto' do Brasil.
Se ele conseguiu fazer algum estágio 'no exterior', então, nossa!, o Brasil passa a ser polo de comparações as mais esdrúxulas, como se não houvesse um passado, como se as mãos com anéis que o tal teatrólogo beija e afaga não fossem as mesmas mãos que açoitaram o avô e o pai daquele jovem pardo que, ao passar por ele, chamou-lhe a atenção pelo volume entre as pernas, afinal, ser bissexual é o futuro... 'lá'. (Mal sabe ele que aquele jovem pardo conhece tão bem homens pseudo-liberais ensebados como o cinquentenário e esquecido artista que o violentou com o olhar lascivo.)
Trata-se de um ódio míope e esquizofrênico, que recai sobre os homens e mulheres que não se encaixam em seu estreito modelo de perfeição. Este ódio descamba para o sexismo, a homofobia e o racismo, automaticamente. Isto, porque a saia curta da brasileira torna-a num objeto sexual e dá a ele o direito de enfiar a mão nas suas partes íntimas, enquanto a saia curta da jovem francesa é sinal de sua liberdade e emancipação. Percebeu a lógica torta do sujeito? É tão simples quanto isso e por isso mesmo tão ridícula!

O que o homem em questão não percebe é que 'lá' não há quem se importe com a sua 'cópia' teatral, mas dá um saco de euros pelo colorido sofisticado da arte brasileira feita de rendas e chitas, tambores, sanfonas e agogôs. Este pobre coitado chafurda numa lama fétida de inveja e se defende como pode, com a sua ousadia discriminatória e auto-enganadora, com aquela retórica detestável e desrespeitosa que faz a podridão de sua mente e de suas emoções ser correspondente ao quadro de feiura em que ele representa o Brasil, este recanto de gente que ama odiá-lo, iludida com uma imagem de 'paraíso no estrangeiro' que não existe.
Gente de pensamento curto, como a obra do teatrólogo nojento, e de sentimento defasado, como o Brasil que ele descreveu numa entrevista, "paisinho de 4º mundo, Corsa que quer ser Mercedes". Gente triste, 'intelectualoidezinhos' melecas de um qualquer submundo: Jac Motors que querem ser Bugattis.
São brasileiros e brasileiras que repercutem em seus comentários preconceituosos enganosas noções de identidade 'européia', sempre a imaginarem que "lá" tudo funciona, tudo brilha, tudo está em perfeita ordem. "Lá", para eles, não viveria este povinho, não haveria esta sujeira, esta corrupção, esta realidade. Diante de uma qualquer adversidade midiatizada, repetem a máxima, 'vou-me embora desse fim de mundo'.Este ódio pelo Brasil é tanto mais forte quanto maior for a articulação do seu propalador com a imprensa cultural. Um teatrólogo brasileiro que tenha conseguido, em algum momento dos anos de 1990, fazer fama entre circuitos 'alternativos' com sua obra experimental à moda novaiorquina, por exemplo, torna-se quase imediatamente um detrator feroz do seu país de origem. Nem precisa ter ficado rico, ou ganhado reputação entre outros circuitos artísticos, além do paulista ou do carioca, para que de sua boca sejam cuspidas ofensas generalizantes dirigidas a todo o 'resto' do Brasil.
Se ele conseguiu fazer algum estágio 'no exterior', então, nossa!, o Brasil passa a ser polo de comparações as mais esdrúxulas, como se não houvesse um passado, como se as mãos com anéis que o tal teatrólogo beija e afaga não fossem as mesmas mãos que açoitaram o avô e o pai daquele jovem pardo que, ao passar por ele, chamou-lhe a atenção pelo volume entre as pernas, afinal, ser bissexual é o futuro... 'lá'. (Mal sabe ele que aquele jovem pardo conhece tão bem homens pseudo-liberais ensebados como o cinquentenário e esquecido artista que o violentou com o olhar lascivo.)
Trata-se de um ódio míope e esquizofrênico, que recai sobre os homens e mulheres que não se encaixam em seu estreito modelo de perfeição. Este ódio descamba para o sexismo, a homofobia e o racismo, automaticamente. Isto, porque a saia curta da brasileira torna-a num objeto sexual e dá a ele o direito de enfiar a mão nas suas partes íntimas, enquanto a saia curta da jovem francesa é sinal de sua liberdade e emancipação. Percebeu a lógica torta do sujeito? É tão simples quanto isso e por isso mesmo tão ridícula!

O que o homem em questão não percebe é que 'lá' não há quem se importe com a sua 'cópia' teatral, mas dá um saco de euros pelo colorido sofisticado da arte brasileira feita de rendas e chitas, tambores, sanfonas e agogôs. Este pobre coitado chafurda numa lama fétida de inveja e se defende como pode, com a sua ousadia discriminatória e auto-enganadora, com aquela retórica detestável e desrespeitosa que faz a podridão de sua mente e de suas emoções ser correspondente ao quadro de feiura em que ele representa o Brasil, este recanto de gente que ama odiá-lo, iludida com uma imagem de 'paraíso no estrangeiro' que não existe.
Gente de pensamento curto, como a obra do teatrólogo nojento, e de sentimento defasado, como o Brasil que ele descreveu numa entrevista, "paisinho de 4º mundo, Corsa que quer ser Mercedes". Gente triste, 'intelectualoidezinhos' melecas de um qualquer submundo: Jac Motors que querem ser Bugattis.
domingo, 24 de março de 2013
A Importância do Voto Popular nas Eleições Legislativas
Pelas manifestações que vejo nas redes sociais eu concluo que, de um modo geral, o brasileiro e a brasileira ainda não dão o devido valor às eleições parlamentares. O mesmo eu posso dizer sobre a atuação dos movimentos sociais, os quais até agora não apresentaram, por estas mesmas redes, nomes de possíveis candidatos ou candidatas a vagas nas câmaras estaduais e federal ou ao senado. Estamos todos perdendo tempo valioso.
A crítica sobre a atual composição destas casas legislativas é absolutamente legítima e oportuna, porém há um meandro da ação política que precisa ser compreendido: embora não vivamos num parlamentarismo, ou num semi presidencialismo, é a ocupação de cadeiras nas câmaras e no senado - como também de prefeituras e de cadeiras de vereadores municipais Brasil a dentro - o que dá a medida final e palpável do "capital político" de partidos e de movimentos da sociedade. Criminalizar a ação política baseada na coalizão entre forças eleitorais é nadar de encontro a este princípio da tão demonizada realpolitik. Enquanto isto, os nossos adversários nadam à nossa frente com largas braçadas.
A lógica da cooptação financeira ou fisiológica de congressistas é apenas uma dentre as muitas estratégias postas em prática para o alcance daquilo a que se chama comumente de governabilidade. Pelo nosso sistema político atual, não dá para fugir disto e é preciso compreender que os avanços sociais e políticos dependem não só da eleição de deputados e senadores confiáveis, mas principalmente, de homens e mulheres comprometidos com interesses caros a segmentos vulneráveis da sociedade. É isso a que eu tenho chamado de lobby legislativo do oprimido. Somente com ele poderemos transformar o doente sistema político brasileiro, com equidade e isonomia.
Aquele meandro da negociação de interesses é parte central da política brasileira (e não somente dela) e é com ele que se poderá fazer frente aos segmentos econômicos e religiosos que por hora ocupam com tanta força o congresso nacional e as câmaras estaduais. O "poder" destes grupos advém da capacidade de organização e de cooptação de votos de que eles lançam mão no período entre eleições, principalmente nas zonas rurais e nos pequenos municípios.
Enquanto lutamos para retirar da comissão de Direitos Humanos um indivíduo do PSC; contra a absurda ocupação por Blairo Maggi da presidência da comissão de Meio Ambiente ou; enquanto esbravejamos contra a falta de políticas públicas de atenção aos LGBT e ao indígena no governo federal, quantos de nós sabem em quem votarão para deputado, deputada, senador ou senadora em 2014?!
A pergunta pode ser formulada em outros termos: quantos candidatos e candidatas, por estado, já foram indicadas pelos movimentos de minorias, de modo a, por aquelas mesmas redes sociais, nós podermos conhecer de antemão suas plataformas e difundi-las na internet?
Percebe como estamos numa luta quase estéril?! Enquanto seguimos a agenda ignóbil de setores com imenso "poder de barganha", estes já estão, há meses, levando seus 'seguidores' a conhecer uma série de nomes de possíveis lideranças, todas elas aptas a concorrerem nas próximas eleições legislativas ou a se tornarem eleitores privilegiados em suas igrejas, sindicatos e associações. Corremos o risco de ver as bancadas fundamentalista e ruralista aumentarem de número, enquanto nós continuaremos à mercê da benevolência de governos executivos, cujas próprias agendas são determinadas por aqueles que tem maior capital político. É um ciclo vicioso que apenas nos prejudica. Isto, sem nos esquecermos de que os grupos reacionários agem com acordo de mutualidade, o que significa que vêm atuando em prol dos seus interesses, ainda que não sejam interesses comuns entre eles, num evidente exemplo de brigada política.
Portanto, as estratégias dos movimentos sociais, dentre eles, o LGBT, o negro, o feminista, o indígena, o de portadores de necessidades especiais e o de sem-terra deveriam passar por articulações de demandas e pela apresentação à sociedade de candidatos setoriais, solidariamente comprometidos. Assim, teremos mulheres votando em mulheres que defendem indígenas, negros votando em negros que defendem LGBTs, sem-terras votando em sem-terras que defendem portadores de necessidades especiais e vice versa. A nossa legislação poderá ganhar um enorme impulso, no que tange à garantia de direitos sociais e civis. E, como consequência, teremos governos, estaduais e federal pressionados por esta força política organizada e, aí sim, poderemos medir o compromisso de cada governante e dos seus partidos para com as causas populares.
O que existe hoje é um conjunto de homens e mulheres que, ao fim e ao cabo, não representam, nas respectivas casas legislativas, os interesses da grande maioria do povo brasileiro, além de governos reféns de suas agendas anacrônicas, porque aqueles homens e mulheres souberam fazer a política que os movimentos sociais e os brasileiros e brasileiras em geral, por incapacidade, má informação ou ignorância, não vêm fazendo. Temos que mudar isto, caso contrário, continuaremos a dar de comer à fera que anseia pela nossa própria carne.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
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