quarta-feira, 7 de julho de 2010

1,5 x 10 = Cinema

De que é feito um bom filme?

Falar sobre cinema, como brasileiro, enche-me de certa angústia, porque eu não consigo aceitar a nossa situação periférica no que diz respeito à produção cinematográfica.  Com raras exceções, inclusive com a honrosa presença de um meu conterrâneo Glauber, a quem devemos os princípios pelos quais se regem os melhores projetos de cinema da atualidade, a nossa tradição cinematográfica é, ou obscurecida por um oportunismo irresponsável de cineastas amadores, que resulta na produção de filmes sem a mínima qualidade técnica ou dramatúrgica, ou no lançamento de filmes capengas, oriundos de olhares e de mãos hipnotizadas por um padrão audiovisual extremamente comprometido pelo ritmo e superficialidade televisivos.

As raras exceções, que apresentam apuro técnico e roteiro elaborado, volta e meia confundem-me como espectador, pelo apego à tragédia de cada dia dos pobres brasileiros, numa fetichização desta miséria. Muitos dos nossos filmes apelam para um tal realismo que, embora sejam bem feitos e ofereçam um bom espetáculo cinematográfico, quase podem ser classificados como panfletos direitistas e cínicos, despejados sem dó ou piedade por pequeno burgueses pseudopolitizados.

Porque não basta comprometer o filme com uma "questão social", ou com a exposição de uma tal concepção pessoal sobre "o social". Ele, o filme, há que propiciar a vivência de um drama através da tela, para que seja arte e verdadeiramente arrebate quem o assiste. O fime não precisa embrulhar estômagos, submergindo-se na percepção da 'maldade' na vida de um pobre negro cooptado pela criminalidade, nem de um travesti que enfrenta o status quo à faca, da prostituta fodida e mal paga, ou do adolescente rico sem eiras ou beiras morais que estupra, mata e está nem aí para a vida alheia. Tudo isso em cinema, diria José Louzeiro, é peripécia.

Ação dramática implica a tradução poética de uma situação que pode ou não ter relevância no embate de idéias políticas. A grande dificuldade para um roteirista é expressar uma fala sem que ela pareça um discurso, que soe corriqueira e, ainda assim, cheia de simbolismos pungentes. Caso contrário, a opção por personagens embaraçosamente tristes ou aviltantes, deixa de ser um estilo para ocupar, equivocadamente, o lugar do gênero cinematográfico.

Filmes como Patrik 1,5 despertam-me esse sentimento crítico para com o nosso cinema exatamente por me arrebatarem pela simplicidade coerente, pelo respeito à integralidade  dos personagens. Preste atenção a esta sequência (com legendas em espanhol):





Pronto, não preciso dizer a você que o filme trata da superação de preconceitos. Não preciso dizer que o casal gay está presente, não para se ouvir subliminarmente a esta presença um coro, "oh, são gays equerem adotar uma criança", ou um "oh, um jovem bandido, retroalimentando um sistema miserável e vil", em relação ao Patrik "delinquente". Não, trata-se de um filme sobre alterar um modo de se ver a vida e de sa viver. Um modo de se perceber as memórias, os traumas, as frustrações, as perdas e de ultrapassá-los. Os personagens estão ali por serem arquetípicos, complementam-se para contarem uma história singela, porem repleta de interseções com as histórias de vida dos homens e mulheres que o assistiram comigo naquela noite de sábado.

O cinema não é um divã de diretores presunçosos, nem lhes deve servir como alento a seus egos insaciáveis. Todo maniqueísmo é pernicioso à arte. Toda vaidade embota o talento. Em Patrik 1,5, cada detalhe é leal ao conjunto da trama. Não há uma tentativa de algo ou alguém parecer maior que os desejos dos personagens; desejos estes que se cruzam o tempo inteiro, fazendo os protagonistas solucionarem uma equação complicada por inúmeras variáveis, pelos embaraços provocados pela cultura que cerca a cada um de nós, personagens na tela e cidadãos presentes à sala de cinema.

Em filmes brasileiros, poucas vezes isso acontece. Poderei eu ousar dizer que nunca ocorrem? Não quero ser injusto, por isso admitirei o 'poucas vezes', como para atenuar meu ressentimento. Se pegarmos os mais recentes sucessos de bilheteria nacionais, poupadas as comédias as quais eu não vi e portanto não tenho o que falar, temos filmes sobre a bandidagem, sobre a face escura (negra,sim) do Brasil pobre e racializado, em tramas hipocritamente engendradas para que o brasileiro médio continue a acreditar que a vítima histórica da desigualdade é, na verdade, a culpada pela própria mazela.

A inversão da identidade étnica num filme-referência da produção nacional dos anos 00, "Cidade de Deus", é uma das evidências disso que digo. Baseado em uma etnografia, o diretor optou por retratar negro o personagem sanguinário que, na história real, era branco. Por que será?

Se Patrik 1,5 fosse dirigido por um destes brasileiros, eu não tenho dúvida de que haveria um antentado engendrado pelo adolescente. Ao contrário, Patrik 1,5 transfere parte desta agressividade a um dos gays que formam o casal, de modo a equalizar uma informação elementar do filme: a causa da violência tem múltiplas fontes e não está atrelada ao sujeito, mas principalmente à sua trajetória e à percepção pelo outro de sua carência. Este enfoque nos faz distribuir amor igual aos três personagens centrais e nos faz enxergar a violência que existe por trás da vida regular de um subúrbio sueco, ou de um bairro qualquer na grande Salvador, cheia de histórias de desgraças e explorações.

Assim, eu retorno à pergunta inicial: um filme deve ser feito de abnegação e simplicidade. Uma boa história é maior e mais importante do que um posicionamento subjetivamente considerado edificante - via de regra estas atitudes de soberba acabam por expressar ignomínia e preconceito, comprometendo a obra esteticamente. Uma lição que a maior parte dos deslumbrados diretores brasileiros precisam aprender, antes de quererem as glórias de serem considerados deslumbrantes.

terça-feira, 22 de junho de 2010

CALA BOCA, e temos dito

Eu já queria escrever sobre o humor e o esporte na programação da Rede Globo há algum tempo e eis que surgiu o momento ideal. Entretanto, antes de comentar mais um homérico CALA BOCA no Twitter, vou lhe incitar com três questões que assaltam a mim, que não sou um espectador de esportes:

Por que a Rede Globo tem apelado para o "humor" em suas reportagens sobre futebol, nos últimos anos?
O que tem Tadeu Schmidt de engraçado?
E, finalmente, por que eu me tornei um fã de Dunga?

Vou elaborar resposta a cada uma destas perguntas.

A Rede Globo buscou no humor um ingrediente para manter a atenção do seu espectador futebolístico, uma vez que este já havia cedido seu apreço para outros canais de informação, muito provavelmente por ter enjoado de uma velha receita de comunicação centrada na opinião de sábios e experts esportivos, com suas vozes empoladas e seus jaquetões de botões dourados. Outra função do humor nas reportagens sobre esporte é conquistar um espectador mais jovem, afeto a uma linguagem mais coloquial e à interação com a informação transmitida. Contudo, erraram na dose, nos dois sentidos.

Eu sempre detestei aquele quase proselitismo dos que tratavam futebol como uma causa política, um assunto da maior importância. Enojam-me sempre as converas seriosas e demoradas na tela de tv sobre determinado lance do jogo, bem como todo o vocabulário que compõe um comentário sobre futebol.

Contudo, eu compreendo ser o futebol um elemento de nossa cultura absolutamente fundamental para a nossa agregação e para a nossa identificação como brasileiros. Para além dos incidiosos usos do esporte para a dominação política, sei que, na cultura, ele sempre foi um fator nacional relevante, em todas as comunidades. Se, em nosso Brasil de homens e mulheres educados para a política do favor e do mandonismo, o futebol cumpria (ou ainda cumpre?) uma função idiotizante, aí eram outros quinhentos, os quais sequer eram exclusividade nossa.

Aonde quer que se vá, encontrar-se-á um povo hipnotizado num estádio por uma partida de rugby, uma corrida de cavalos, ou uma partida de futebol. O que me incomoda é tornar o preselitismo num fator de distinção que, nessa atividade tão prosaica e elementar, apresentava ao brasileiro simplório, acomodado em seu sofá, com seu copo de cerveja e seu tira-gosto, um tipo garboso e imprestável, pago para despejar sapiências inócuas e para ser mais um, na telinha, a repetir: "você, 'Hommer Simpson' não sabe pensar, apenas sente. Eu penso por você e cale a sua boca!"

Ocorre que esse Hommer mudou e já não se ludibria mais com a insistente gritaria dos narradores futebolísticos. O que lhe foi imposto como alternativa, então? Um reporter engraçadinho. Assim, a Rede Globo parecia dizer: vamos pega-los pelo humor, já que 'os brasileiros' têm um humor peculiar e que ele permeia praticamente todas as ações destes 'Hommers'. Erraram no tipo, não na constatação.

Sim, porque somos humorados e a mega-piada CALA BOCA GALVAO afirma o nosso estilo. O 'humor' de Tadeu Schmidt, por seu turno, é tudo menos engraçado. Não é o humor do brasileiro médio, tampouco o brasileiro que eles parecem enxergar é o brasileiro que de fato existe. E daquí eu passo para a segunda resposta.


Tadeu Schmidt é um tremendo besta. Sabe aquele colega tosco, que faz gracinhas com sua voz estridente, que não sabe rir junto, mas apenas rir de (algo ou alguém)?

Aquele típico piadista de churrasco, de cuja piada não vale contestação ou intervenção e que o riso que ela provoca é mecânico? Sabe aquele chato, de inteligência mediana, que é suporável apenas por assumir, como estilo, o tipo 'genro que mamãe pediu a deus'?! Aquele que ocupa seu espaço entre os demais como que dizendo: "eu, do alto de minha sobriedade, vou rir enquanto vocês apenas vomitam. Eu sou demais! Invejem-me, seus bêbados!"

Esse é o humorista que a Globo escalou para hipnotizar com gargalhadas os Hommers Simpsons vidrados em futebol. Não é o cúmulo do desrespeito acreditar que os brasileiros espectadores de esporte se deixariam levar por isso?!

Tal qual um CQC, só que engomado, Tadeu Schmidt é um pulha assalariado, um pobre coitado que não se respeita e que não respeita os demais. Um lobo em pele de cordeiro, um daqueles 'genros que mamãe pediu a deus' que matam qualquer um de tédio! Esse moço, coitado, é um tolo. Sua façanha, que o credenciou a estar a cada domingo no Show da Vida (dele), é um quadro, "Bola murcha e Bola cheia", pelo qual ele esbanja talento para trocadilhos absurdamente imbecis. Seu taleto para a piada é tão irreal quanto a sua simpatia.

Ele mereceu o CALA BOCA, menos que GALVÃO, evidentemente, porque menos notório e menos notado. Porém, ganhou minha gratidão por ter criado, em meu panteão, um ídolo novo: Dunga.

Sou admirador de homens e mulheres independentes, francos e corajosos. Gosto dos que não têm medo, dos que se deixam guiar por seus institntos e por suas convicções. Quero o bem de quem tem seus princípios e faz deles bandeiras de suas batalhas. Eu confirmei, graças a Tadeu Schmidt, uma suspeita antiga: Dunga defende a mesma causa que eu.

Lutamos, juntos, contra esta hegemonia ilegítima e ultrapassada da Rede Globo de Televisão, ou melhor, de toda a Mídia Direitola, que se arroga no direito de influenciar decisões capitais para o Brasil.

Dunga se tornou meu ídolo, no exato momento em que eu ouvi, pela internet, após a exibição do Fantástico na Globo, o 'pronunciamento' desta emissora, cujo porta-voz foi o seu palhaço da vez, o mauricinho encapuzado, Tadeu Schmidt. Oh, coitado! Todavia, eu não esperava ver confirmada tão rapidamente a minha tese do post anterior, escrito no último dia 17, pela qual eu argumentei que o Brasil já luta contra a Globo, mas o que foi que me surpreendeu hoje pela manhã, nos trending topics do twitter? O sonoro CALA BOCA TADEU SCHMIDT, que dominou o mundo.

Desta vez, não queríamos somente fazer piada. Fomos mais diretos em nossa mensagem. CALA BOCA REDE GLOBO foi o subtexto. Estarmos imbuídos disso dá-me vontade de chorar! Num dia só, ganhei um general e um exército ou, para ser engraçadinho, num só dia ganhei uma seleção brasileira para eu torcer (cosa que nunca fiz na vida, juro) e um circo inteiro do qual eu rirei cada vez mais, junto com meus contemporâneos.

Perdeu, playboy! A casa caiu, a bola murchou, 'vaza'! Agora é a hora e a vez dos combatentes. Sai de baixo, que dia 25 vem mais na sua fuça. CALA BOCA:, e temos dito!

quinta-feira, 17 de junho de 2010

CALA BOCA GALVAO


Fico imaginando o estarrecimento dos donos das grandes redes midiáticas brasileiras (ou mesmo de outros países) ao perceberem que seu "poder" já vai pelo ralo.

O fenômeno CALA BOCA GALVAO, que nasceu no twitter e atingiu jornais e televisões em todo o planeta, é a expressão do uso coletivo e inteligente de uma ferramenta digital para obtenção de domínio sobre a informação. Um verdadeiro descredenciamento daqueles que são pagos, ou pagam, para se fazerem ouvir incidiosamente, como se fossem os únicos detentores de um saber e dos quais nós, os espectadores, nos tornamos verdadeiros escravos.

Como não há sapiência nas falas de gente como esse Galvão Bueno, resta-nos responder à sua arrogância com uma ousadia bem maior que a que o seu salário lhe permite conquistar. Ele é apenas um funcionário da Rede Globo de televisão e, portanto, mais dominado que qualquer um dos que, para terem paz para vibrarem ao assistirem um espetáculo esportivo esperado por quatro anos,  sem serem importunados em sua privacidade por uma voz renitente e enfadonha que diz nada sobre tudo, gritaram, alto e claramente: CALA BOCA GALVÃO!



Se de início, a mensgem foi dirigida ao tal locutor, oportunamente, o Galvão foi se tornando cada vez mais arquetípico. Na expresão que rapidamente se espalhou pela internet, ele passou a concentrar significados múltiplos e complementares, para além das piadas com a Lady Gaga ou memso com os pássaros, embora esta imagem corresponda à sua fisionomia. Galvão, no twitter, passou a ser um símbolo que abarcasse toda uma comunidade de "jornalistas", "artistas" e "intelectuais" que serve obstinadamente aos interesses daqueles que os dominam pelo salário.

Galvão passou a ser também a ignomínia engravatada de um Arnaldo Jabor, a canastrice de Williams Waacks, a cara de pau do casal telejornal Nacional, a frivolidade do casal Huck, a empáfia grosseira e também verborrágica de Faustos Silvas e Gugus, a acintosa hipocrisia de Reginas Duartes, o cabelo alisado de Glórias Marias, além da indissimulada parcialidade de uma ficção que mais parece panfleto ideológico deste neoliberalismo cínico, que continua a endeusar caucasianos pequenoburgueses, como se "retratasse" um país qualquer, que não o Brasil.

Este CALA BOCA é o sinal de insubserviência, de um autêntico ato de desobediência. É quase a realização de um sonho Habermmaniano, uma sublevação inesperada e ofensiva daquele mesmo "povo" sempre tão "bem mandado", que comprava os mesmos produtos, nas horas marcadas por eles e pelos donos deles. Uma ação improvisada, porém deliberada por um desejo antigo de conseguir falar mais alto que esta gente. A Copa do Mundo é um desses momentos em que as vontades individuais se tornam imbuídas de sentimentos semelhantes, que levam a ações quase orquestradas. Eles pensavam que sua "ação pedagógica" pudesse ainda ser maior que a potencialidade nacional, ou que esta não se encaixaria jamais numa categoria política? Foi-se o tempo dos currais!

Devem estar atordoados, sem saber por onde começarem uma reação eficaz. Como bem lembrou Tsavvko, resta-lhes a tentativa de restrição de nossa liberdade online para fazerem valer seus interesses escusos. Contudo, eu duvido muitíssimo que venham a conseguir 'calar as bocas' de todos esses novos interlocutores dos meios de comunicação de massa.

Há mais a realizarmos do que ouvirmos o que eles querem dizer. E, embora o tráfego de informações na internet já seja bastante controlado (como já nos avisou minha querida M.I.A.), não há como frear uma ação criativa emanada por um cidadão conectado e, caso esta manifestação seja adotada como fala coletiva por milhões de outros cidadãos, haverá muito pouco que uma política privativa possa fazer.

Além do que, pensemos, já não se fazem mais Hommers Simpsons como antigamente, tampouco os Williams Bonners se mantiveram tão interessantes e sedutores, o que é ainda mais relevante. Assim, já não está tão numeroso o exército dos que se dispoem a repetir cegamente o que ouvem na televisão e o que leem nos jornais. A crise da profissão de jornalista é apenas reflexo desta atual indignação para com os notíciários e mesmo para com os  textos subjacentes aos roteiros de novelas, filmes e minisséries. Eles não queriam, ou sequer apostavam nesta possibilidade, porém ei-la viva: já não somos mais tão domináveis.

Portanto, esse CALA BOCA GALVAO é um ACORDA BRASIL, ou melhor, 'SAIAM FORA' MARINHOS, BISPOS MACEDOS, SAADS, CIVITAS! Esse CALA BOCA GALVAO - e todo o humor que o gerou e que dele foi gerado - é a expressão ideal da tal "inteligência coletiva", legítima expresão da cidadania, realização da democracia, propiciada pelo surgimento de um meio fluidio e ingovernável, como o é a internet. Sejamo-lhe gratos pelo início de nossa emancipação!

Eles devem estar embasbacados, sem dúvida. E já vinham ficando há anos, quando começaram a perder espaço para outras empresas, igualmente detestáveis. Desta vez, no entanto, passaram a sentir o golpe definitivo que os fará ter que ouvir as vozes dos que estavam fora. O golpe que os fará rever seus princípios e adotar atitude menos soberba. Este golpe se manifesta: na dificuldade de moldar os comportamentos sociais, mesmo com ofensivas como os BBBs da vida; na falência das telenovelas; no descrédito de "apresentadores" e "comentaristas"; e na contínua rejeição das mentiras interpostas por seus veículos de notícia. É o fim! Perderam, playboys!

E a resposta virá reiteradamente, na forma de negações aos seus ditames, como se vê com a enorme e estável popularidade de Lula, contradizendo toda uma campanha articulada de difamação e descredibilização. Certamente, ver-se-á também esta negação com a vitória de Dilma e com a perda de credibilidade de quem quer que se deixe envolver mais de perto em suas artimanhas contestáveis. E eles terão que 'calar suas bocas' e passar a nos perguntar o que queremos que eles digam, sob o risco de perderem completamente nossa atenção.

Para além de termos figurado autores da piada mais bem feita e genuína do Século XXI, uma realização coletiva de feito similar ao consagrado por Orson Welles, apesar deste nosso humor ter-nos feito heróis de uma nova era, orgulha-me o episódio CALA BOCA GALVAO pelo que ele tem de subversivo e simbólico para com nossa própria cultura.

O acerto de nossa parte foi tão eloquente, que faixas com a expressão CALA BOCA GALVAO têm invadido estádios sulafricanos, durante os jogos da Copa. No primeiro jogo, no vídeo acima, aquela faixa desapareceu em menos de dez minutos. Não sei se os nossos "comunicadores" e seus advogados foram poderosos o suficiente para obrigarem a sua retirada, prefiro crer que, dado o seu tamanho, ela atrapalhava a emissão das subliminaridades publicitárias em torno do campo de futebol. Não importa! Fizemo-nos ler em toda a rede mundial de computadores e temos invadido o território inimigo (a velha e boa telinha) para lançarmo-lhes novas bombas!

Brasileiros, fomos terroristas digitais numa guerra justa! Estou orguhoso de nós mesmos. Soubemos lutar e rimos enquanto o fazíamos. Demos mais uma lição ao mundo porém, antes, ensinamos a nós mesmos que, sim, podemos e vamos tornar diferentes as coisas de como elas estão.

Em alto e bom som, repitamos, enquanto for preciso: CALA BOCA GALVAO!

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Pena de Marina

Eu sinto pena de Marina Silva. Não por ela me parecer uma pessoa um tanto frágil, com o corpinho sempre a pedir repouso. Veja-a na capa da Istoé, acolhendo-se em suas mãos, indefesa, vestida com pulover de lã, em nosso "país tropical". Tadinha, parece febril. Contudo não é por isso que sinto pena, porque sei que ela é amada e terá sempre alguém a lhe cuidar com desvelo e, neste planeta, isso é mais do que precisamos.

Também não sinto pena de Marina por sua conversão ao pentecostalismo ultraconservador e de leitura restritiva da Bíblia, que tende a acreditar em cada vírgula do livro sagrado, desconsiderando o que ali houver de metafórico acerca da existência humana e seus conflitos subjetivos.

Não é por ela hoje acreditar na Bíbila como um compêndio de lutas do bem contra o mal e de normativas moralizantes adaptáveis à nossa época, mesmo sabendo que, como toda literatura, a Bíblia ancora-se em determinados contextos históricos e deve ser lido sob o filtro da cultura, sem que isso precise lhe extrair o mínimo de força simbólica. Não é por esta conversão que, para mim, torna-a alheia a cada verso de Augusto dos Anjos, ou mesmo a muitas das estrofes 'espiritualizantes' compostas por Gilberto Gil, que eu sinto pena de Marina Silva.

Eu sinto pena por Marina não se perceber vitimada por uma dessas insuspeitas articulações entre "bem-intencionados" e "ególatras corruptíveis", que costumam tornar os eventos políticos em festas cool, ao gosto de nossas elites "bem-informadas".

Marina é usada por todos os que se arvoram em negar a capacidade que a ignominiosa facção à direita de nossa política tem de, utilizando seu remanscente potencial eleitoral, atrair para si antigos "esquerdistas" que, insulflados pelo próprio ego, entregam de bandeja seus princípios, em troca de uma fatiazinha a mais num bolo que ainda imaginam fofo sobre a mesa.

Sinto pena de Marina Silva justamente por ela não perceber o quão refenizado se torna um partido da minimidade do PV diante destas investidas. Penso que, para setores tão agregados a propostas progressistas, especialmente o PV, ancorado nas causas ambientais, tornar-se em algum momento aliado de um DEM, por exemplo, é o mesmo que cuspir em sua história de lutas e esboçar um destino em que as personalidades que o compõem se verão sempre obrigadas a se contradizerem e a esmiuçarem argumentos toscos que lhes permitam justificar o ninho de ratos em que estarão metidos.

Desde que, no Rio, o PV inaugurou uma era de traição de princípios, aliando-se à direita nas eleições de 2002, se não me falha a memória, que eu conclui ser aquele o começo do fim do partido. Uma coisa é, num estado de menor relevância, aliarem-se dois grandes partidos antagônicos, numa manobra fisio-pragmática que, embora os manche em seus capitais políticos, não os impede de sairem ilesos, amparados pelo personalismo ainda presente em nosso debate político. Outra coisa muito diferente é um pequeno partido, ancorado na figura de uma personalidade que o representa, abrir-se ao inimigo, imaginando que esta personalidade terá meios de sozinha driblar os interesses escusos de um grupo de figurões da direita.

Ainda mais se esta personalidade verde for o controverso Gabeira. Alguém pode me dizer se existe no Brasil figuira menos confiável que este senhor? Com seus arroubos de vaidade e sua empáfia garbosa, este homem envergonha a política nacional, exatamente porque seus ternos bem cortados de hoje representam a perfeita evolução de sua tanga de crochê de outrora, mostrando que por trás de suas "lutas" esconde-se um pequeno-burguês vazio de verdadeiro comprometimento para com as causas que diz defender.


Sinto pena de Marina Silva por ter que dividir com José Serra alguns minutos na televisão, no Rio de Janeiro. Sinto pena dela por, em um eventual segundo turno ter, ou que ficar em cima do muro, ou ter que optar por apoiar ou ser apoiada por um candidato que está rodeado pelo que há de mais sórdido em nosso cenário político, grupo que não exitaria um segundo antes de mandar derrubar a amazônia e matar índios, se isso o ajudasse no acúmulo de mais alguns centavos.

Sinto pena de Marina Silva por ela ter que, em algum momento, definir-se finalmente. Ela é uma evangélica reacionária ou uma ambientalista, no que este termo tem de contraditório com as bases de sua "fé"?

Sinto pena de Marina Silva por, na Bahia, apoiar um Bassuma que, por meio da 'esperteza' de algum marketeiro, espalhou pelo estado um adesivo em que se lê "Assuma o verde", numa alusão ao seu nome, mas que, pelas graças da semiótica, pode retornar a ele mesmo, como que conclamando: "assuma-se, Bassuma, e 'se saia'!".

Assuma que seu posicionamento é incompatível com a luta por um desenvolvimento ambientalmente saudável, que perpasse a elevação, à categoria de Direitos, de certas prerrogativas sobre o corpo, sob o risco de, salvando árvores e baleias, deixarmos morrer à míngua milhares de moças de 14 anos, desesperadas por não poderem assumir uma gravidez.

A Política não é o campo da Moral, mas o meio pelo qual as diferentes morais possam se entender, sem se machucarem nas jugulares programáticas. Assim, mesmo sendo eu também contrário à prática do aborto, como político devo compreender que se trata de um problema de saúde pública e que se deve, sem hipocrisias, torná-lo num programa de respeito ao direito feminino de interromper uma gravidez, sob determinadas circunstâncias.

A Deus, o que é de Deus; aos humanos, a capacidade de pacificação. Que verde é esse que insufla a dúvida e a discórdia?! Assuma, Bassuma. Que pena de Marina!


Ela não deveria ter saído do PT e, quando o fez, demonstrou agir motivada por um sentimento igualmente incompatível ao seu discurso: a vaidade. Marina saiu do PT por descobrir que ela não seria a primeira mulher presidente da república. Não a culpo por seu ressentimento, afinal ela tem muitos dos requisitos, exceto dois, sumamente importantes: capacidade de diálogo e compreensão sistêmica dos interesses em jogo.

Ao optar pelo PV, clareou-se mais a sua motivação: garantia da sua tão ansiada candidatura. Entretanto, logo se percebe que a sendora se meteu num imbróglio: caso fosse eleita, teria, então, que renunciar à presidência, visto que as condições de melhorias interpostas ao Brasil implicam a busca de soluções conjuntas, as quais ela foi-se mostrando cada vez menos apta a facilitar, quando Ministra?

Sinto pena de Marina por esta contradição a que conscientemente entregou sua biografia e por hoje ter que mentir para tentar ganhar espaço no gritinho.

E, finalmente, pergunto-me: o que faz com que artistas, homossexuais e mulheres declarem seu voto em Marina Silva? Anti-fisiologismo? Mas, e a situação no Rio e os desdobramentos em nível nacional que ela sinaliza? Seria por conta do discurso ambiental? Mas, e as contradições na proposta, que parecem utópicas a ponto de contrariarem a tendência de aumento nos investimentos em infra-estrutura?

Seria, então, por um suposto prestígio à cultura nacional? Ora, as suas concepções religiosas não tornam Marina vulneráveis ao retrógrado, inclusive no campo das ciências, ou direito e ciência não são parte da cultura? Bom, seria mesmo as posturas conservadoras denunciando que, na verdade, nossos 'mudernos' são tão progressistas quanto Regina Duarte?! Sinal dos tempos....

Eu, enquanto me pergunto, espero pelos dias que virão. No fundo, há apenas dois discursos coerentes na disputa: o de Dilma e o de Plínio. Se não votarmos em Dilma, pode ser porque o PMDB está ali pertinho, ou por isso e aquilo, agora, por que não votarmos em Plínio? Será porque ele não é lá tão bonitinho?! É, vai ver seja isso.

Marina é ótima para a foto e melhor ainda para o travesseiro de quem se encanta com os sinais do avanço econômico, social e político brasileiro, mas que não quer sujar as mãos elegendo Temer para vice presidente. Concordo que não seja fácil fazê-lo. Porém, analisando os dados, vejo ser infinitamente pior entregar uma grama a mais de poder nas mãos de quem hoje tem rodeado a Sra. Marina Silva, inclusive seu vice. Pena, porque gosto dela. Pena, mil vezes pena. Contudo, tudo indica que assim o quis o Deus dela. Então, que assim o seja.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Interpelado pela Direita

Recebi, hoje, de uma amiga anti-petista a seguinte mensagem, por e-mail:

Às 12:31

"Lembrei de vc Murilinho...
tive que mandar.. rsrs


A tartaruga no Poste

Enquanto suturava um ferimento na mão de um velho gari (cortada por um caco de
vidro indevidamente jogado no lixo), o médico e o paciente começaram a
conversar sobre o país, o governo e, fatalmente, sobre Lula, sobre a Dilma. O
velhinho disse:
- Bom, o senhor sabe, a Dilma é como uma tartaruga em cima do poste...
Sem saber o que o gari quis dizer, o médico perguntou o que diabo significava
uma tartaruga num poste?
E o gari respondeu:
- É quando o senhor vai indo por uma estradinha e vê um poste. Lá em cima tem
uma tartaruga tentando se equilibrar.
Isso é uma tartaruga em um poste.

Diante da cara de bobo do médico, o velho acrescentou:

- Você não entende como ela chegou lá;
- Você não acredita que ela esteja lá;
- Você sabe que ela não subiu lá sozinha;
- Você sabe que ela não deveria, nem poderia, estar lá;
- Você sabe que ela não vai fazer, absolutamente nada, enquanto estiver lá;
- Você não entende porque a colocaram lá;
- Então, tudo o que temos a fazer, é ajudá-la a descer de lá, e providenciar
para que nunca mais suba, pois lá em cima definitivamente, não é o seu
lugar!!!!
"


Minha resposta:

Às 13:09

rs

Depois de fazer a leitura, perguntei-me:
Por que um gari? E por que ele se cortou com um caco de vidro indevidamente jogado no lixo? Seria culpa do país, do Lula e da Dilma haver cacos de vidro no tal saco de lixo, ou apenas mais um sinal do preconceito de classe que tem permeado esta - e outras - eleições no Brasil?

Mas isso não importa, porque, dias depois, o gari foi ao oftalmologista. Lá, ele repetiu a anedota. O oftalmo, ao final, lhe disse:

- Diante desta sua versão da história, vou lhe dar o resultado do seu exame e uma notícia sobre a tartaruga. O que quer primeiro?

O Gari, querendo conhecer o destino do animal no poste:

- Quero saber da tartaruga! Ela caiu e se espatifou todinha no chão?

- Não, pelo contrário. Não se tratava de uma tartaruga, era uma coruja. Inteligentíssima e com visão panorâmica completa, subiu no poste para esperar que passasse, bem abaixo, uma caravana de hienas muito barulhenta para, depois, discretamente, voar bem alto.

- Impossível, doutor! Eu vi, era uma tartaruga! E tartarugas não sobem em postes. Será que estou ficando louco?!

- Não, é apenas uma forte miopia. Porém, sendo você um gari que vê tartaruga em lugar de coruja, sugiro que procure também um otorrino, porque cego, muitas vezes, é aquele que n quer ouvir.

:-D

Bjos.


***

A conhecida, num acesso comum aos direitistas, opta por encerrar o assunto, quando a resposta lhe cala os 'argumentos':

Às 13:53

"Não querendo prolongar a conversa, pq não leva a lugar algum.. rsrsrs
acho que a questão do gari é por ser um problema de educação e consciencia da população mesmo. Este é um fato muito corriqueiro.
As pessoas colocam vidros e objetos cortantes sem nenhum cuidado no lixo, causando muitos acidentes, até mesmo dentro dos condominios.
bjs"


Eu não pude deixar de demonstrar os atos-falhos de sua escapatória:

Às 14:07

Acho que o momento não é oportuno, pelas eleições e tal, mas a discussão sobre o preconceito de classe é muito pertinente, não apenas no Brasil, mas principalmente.

Em nossos discursos, fica implícita a nossa percepção da inferioridade desta parcela da população, seja para o exercício da cidadania, ou mesmo para o seu melhor posicionamento entre os setores econômicos mais abastados. O q eu quis ressaltar na anedota é o fato de a personagem, o gari, ter chegado ao médico após se cortar no trabalho.

Poderia ser outro sujeito, até mais identificado com os segmentos q votam anti-pt, mas o autor da historinha preferiu representar o que Boris Casoy chamou de "o mais baixo na escala do trabalho", numa das manifestações mais veementes deste preconceito no Brasil.

Se formos procurar o dono do caco de vidro, provavelmente poríamos abaixo o mote da historinha. Eu preferi, na resposta, apontar a contradição interna do gari, em vez de suscitar uma descoberta deste sobre "quem" lhe cortou a mão.

Penso q precisamos nos educar para não mais pensarmos assim, até pq vivemos um período em que as classes sociais no brasil ganham novos contornos étnicos e culturais, com a ascenção das classes D e E aos setores medianos.

Só isso.
uma pena as eleições n nos deixarem, ainda, manter um diálogo mais detalhado sobre a Política de verdade.

Bjão.


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domingo, 9 de maio de 2010

O mal é a hipocrisia


Hoje à tarde, assisti o filme Pecado da Carne (Einaym Pkuhot, 2010), do israelense Haim Tabakman, numa sala de cinema, ao lado de dezenas de outros gays e lésbicas.

A história de Aaron, um judeu ortodoxo casado, pai de quatro filhos, que se apaixona por um jovem forasteiro e com ele vive momentos de forte intensidade
afetiva, deprimiu-me ao final. Talvez porque me fez reviver lembranças ingratas de alguns anos atrás, ou porque me fez ressentir a raiva que não consigo deixar de sentir por homens e mullheres gays enrustidos.

O filme é excelente, por ter usado o judaísmo para escancarar um problema social comum, mesmo em culturas mais liberais, como a nossa. Também é ótimo por não demonizar nenhuma das partes, mostrando que todos agem de acordo com seu conjunto de valores.

Contudo, fica clara que a encruzilhada onde se coloca o enrustido é resultado de sua acomodação numa sociedade de padrões injustos. Esta ambiguidade entre o sentido e o vivido, entre a crenças e as emoções mais íntimas é exposta pelo filme no caso da personagem Sara. Ela está noiva de um "homem virtuoso", porém ama e é amada por Ismael, de quem é obrigada a se separar pela ação de uma comissão formada pelo rabino do bairro, por seu pai e por Aaron, que procuram e ameaçam o amado de Sara.

Mesmo vivendo um amor, Aaron serve, impassível, aos ditames da sociedade que lhe sugará os sentimentos até que ele definhe nos braços da sua jovem e incauta esposa, do mesmo modo que Sara definhará sob a ação preponderante do marido com quem se casa sem vontade. Penso que, com esta personagem, o filme mostra que a doença do enrustimento é causa e consequência de uma série de situações inglórias que acometem os mais diversos tipos de sujeitos.

"Por favor, proteja-me"

Eu não o protegeria, Aaron! Deixo este papel à sua esposa, pobre coitada.

Não me venha dizer que a sociedade é perversa, que o preconceito oprime e dificulta a assunção de posturas sexuais baseadas na honestidade e no auto-respeito; não me venha dizer que os homossexuais enrustidos sejam fruto compreensível de culturas fundadas em cânones religiosos sufocantes e não me venha colocar esta parcela de homens e mulheres num altar de admiração e piedade, tornando-os troféus a um sem número de gays e lésbicas. Recuso-me a seguir novamente por este caminho de condescendência.

Quantas vezes eu próprio não morri de amores por um homem cujo coração se dividia entre o encontro de um parceiro confiável e devotado e a necessidade de forjar uma heterossexualidade, para apresentá-la à comunidade e à família, como prova de sua mais-valia masculina?! E quantos não são os meus amigos e amigas que caem ou já caíram na armadilha de sofrer por tempos, por não se encaixarem na agenda daquele ou daquela que ama e de quem sentem emanar por si um verdadeiro amor? Como isso corrói nossa auto-estima!

Para além da bissexualidade, condição que eu tenho alguma dificuldade em reconhecer, quando apenas serve a escamotear uma evidente preferência homoerótica, o enrustimento de muitos homens e mulheres é uma faceta da sexualidade embotada pela cultura, que carrega o sumo amargo da traição mais torpe.

Primeiro, uma auto-traição, que torna o enrustido num indivíduo cego em relação às necessidades afetivas alheias. Sentindo-se vitimizado, pessoas assim costumam ser egocêntricas e usarem de chantagem para se fazerem entender. Acabam por submeter o objeto de seu desejo a situações humilhantes ou mesmo degradantes. Este, o segundo sujeito traído numa relação que esconde outras partes, igualmente traídas.

A esposa(o), namorada(o) é vilipendiado em sua confiança e usado em sua inocência. Ouso dizer que este ou esta seja a principal vítima da convivência com um enrustido. Tudo o que ocorre entre ela e o enrustido é vazio, inclusive o sexo. Não é raro encontrarmos casais em que o enrustido apresenta uma aparência saudável e bonita, em contraponto ao semblante pesado e à fisionomia desgrenhada de seu companheiro oficial.

Por fim, a comunidade também é traída, porque tem nesta categoria um conjunto de pessoas que alimentam ódio e negação sobre sua condição, capazes de atitudes das mais censuráveis.

A atitude obtusa de alguém que se manifesta em posturas radicais, ou violentas, muitas vezes esconde uma identidade individual cerceada pela impossibilidade de viver o que realmente sente. Muitas vezes, são subservientes à família, contudo a odeiam. Repercutem este ódio naqueles que buscaram os meios de viverem sob a mesma cultura que os oprime, sem abrirem mão de externarem suas emoções. Os enrustidos são muito homofóbicos, via de regra.

Um gay ou lésbica que com ele se relaciona estaria apenas dando vazão a seu masoquismo, este também um efeito perverso da opressão moralista? Eis aí uma pergunta que deve variar caso a caso, mas que não diminui a perversidade da ação do enrustido, que gosta demanipular as carências do seu objeto, lançando-o num jogo de 'dá e toma' que funciona eficazmente como um argumento a mais na refenização do homossexual acometido da convivência afetiva com ele.

Os enrustidos que não respondem à sua tendência homoerótica com violência, são acovardados, aprendem a se odiar e, por vezes, traem-se mais uma vez, ao apresentarem comportamento e gestual homoerótico, tornando-se alvos de chacotas de quem os observa submersos em extrema hipocrisia. Dá-me pena ver a vergonha de quem o ladeia e se vê obrigado(a) a ser cúmplice na farsa patética.

Assim, resta-me lamentar a existência destes substratos de uma cultura aviltante. Ou melhor, restar-me-ia lamentar a nossa tendência em interpor à cultura as responsabilidades pela covardia de uns otários que optam pelo engano e a ignomínia, em detrimento da liberdade. Orientação sexual não é uma opção, como já o sabemos, o enrustimento, sim.

Diga-me o que quiser, porém eu sustento o que penso sobre os enrustidos: tratam-se de homens e mulheres que se acovardam e que povoam nossos espaços mais variados com opiniões e atitudes oblíquas, das quais devemos, os gays e lésbicas, nos afastar. A não ser que queiramos viver um período de extrema angústia.