segunda-feira, 18 de março de 2013

Nada mais de Roma

Há séculos não vou a uma missa. Há séculos, pouco me importam os comentários solenes de Ilze Scamparini sobre a Igreja Católica, direto de Roma, porque, de Roma, amigos e amigas, o que se tem é a acefalia do poder, a decadência final do Estado que ajudou a formar a nossa própria ideia de Estado.

Em Roma, o povo pede a Deus que "o deus venha". E Deus não vem, não na figura de um qualquer papa, não sob o manto de uma instituição religiosa que envergonha o Cristo que deveria ser a sua razão de ser.

Sofram os que aguardavam um líder católico que conduzisse seus fiéis no caminho da paz e da iluminação. Sofram também os homossexuais, os latinos, as mulheres e os africanos, que continuarão a ter suas vidas postas à prova no tabuleiro de ódio, onde brincam os senhores da guerra, vestidos de batina e portadores de estranhos chapéus e de cetros dourados.

De Roma, não mais... E viva a Argentina! Não a Argentina deste papa, outro Francisco. Viva a Argentina que condena à prisão perpétua os seus ditadores, que torna legais os direitos das "minorias" e que atua pela regulação dos meios de comunicação.

A luta continua, apesar de Ilze Scamparini. Não me iludo. Roma, pobre coitada, que se contente com os endiabrados que a mantém sob julgo. Desta Roma, há séculos, notícia boa não vem. E hoje não foi diferente.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Eu ainda escreverei muito sobre as eleições de 2012, por isso por enquanto eu irei apenas apresentar os cinco primeiros eixos de uma breve análise:

1. População não caiu na armadilha midiática de "criminalização da política brasileira";

2. Fortalece-se minha percepção de que a população "vende" quatro anos de gestão pública. População, no entanto, ainda apreende as dinâmicas de Estado a partir d

e ações governamentais « estágio inicial de formação "nacional";

3. Há duas forças políticas perfeitamente delineadas, uma assumida pela liderança petista, outra por uma conjugação de atores que, nestas eleições, foram fortalecidos com as vitórias, em segundo turno, em Salvador com o DEM de ACM Neto, e em Manaus com o PSDB de Arthur Virgilio Neto. A terceira geração de uma 'governabilidade' que muitos, erradamente, consideraram erradicada.
A Direita perdeu, entretanto, poder, especialmente no interior do Brasil.
O PT assumiu a vice liderança entre os partidos, atrás apenas do PMDB. Isso ainda se dá pela força de Lula. Dilma desponta como "líder", Haddad é promessa, Wagner precisa ceder lugar.
Aécio não se construiu nacionalmente, porém será ele quem protagonizará o grande vexame de 2014, contra Dilma.
Eduardo Campos enxerga 2018, Haddad 2020.

4. A meu ver, foi uma eleição popular e com a participação animada de distintas militâncias. Foi, inclusive, menos virulenta que a de 2010.

5. Na Bahia, por exemplo, havia muitas razões para se retirar apoio ao PT, por conta da gestão de Jaques Wagner, considerada por muitos como truculenta e inacessível.
A despeito do inusitado de certas adesões ao ACM e da ação da mídia estadual em torno dos problemas do governo do estado junto aos funcionários, revoltaram-se os anti-petistas clássicos. Com a presença de Lula, vontade de votar no PT subia, com Wagner despencavam-se os índices de elegibilidade de Pelegrino.
Esta é a grande lição ao PT no Nordeste: os votos que vinha recebendo ainda não eram votos partidários. Há que se avaliar as campanhas locais, para se verificar uma mudança nesse quadro.

6. Por outro lado, na militância de oposição, parte dela capitaneada por intelectuais que, ainda que veladamente, apoiaram candidaturas adversárias do governo federal, expressaram-se mais rancores do que propriamente ideias, soluções ou alternativas. Afinal, não haverá povo que se dirija ao abismo para de lá se jogar. Enquanto isso, o PT segue afirmando seu "estilo" de governo. A foto de Dilma de mãos dadas a Haddad - de cara felicíssima - após a apuração é simbólica desse fenômeno.

5. Há dois imensos nichos político-eleitorais que permanecem vazios: à esquerda e à direita. PSOL e DEM irmanaram-se. "Brasil, mostra a tua cara..."
 
 
Publicado no Facebook em 01 de Novembro de 2012.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Jornal Nacional e Arte-Jornalismo

Matéria do JN no último dia 22 de novembro: Procurador-geral da República critica relatório final da CPI do Cachoeira

Script: Apresenta-se a conclusão. O ator diz uma sigla, de modo a torná-la numa obviedade ridícula. Matéria segue com os tropeços na CPI do representante daquela sigla e finaliza com o depoimento do Grand
e Promotor, o Absoluto acusador, o não julgável, sorridente em sua feição semelhante à do eminente humorista.

É quase um bom curta-metragem de ficção, mas ainda é uma 'crônica'! Meio chula, pouco sutil.

Pela coisa do 'realismo' e pelo talento dos atores, dou 3 estrelas e meia.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Alternância e Poder

Um argumento muito propalado por simpatizantes da Direita latinoamericana contra os auto-proclamandos "governos populares/progressistas" é relativo à necessidade de "alternância de poder". 
Entretanto, este argumento somente é válido se vier acompanhado de um 'Projeto de Poder'. 
Explico-me com dois exemplos:

1. Venezuela: Chavez venceu sem ampla maioria, não por ser um ditador, ou por não ser eficiente o processo eleitoral de seu país.
Chavez venceu na Venezuela, porque seu concorrente, ao longo dos últimos anos e meses, não conseguiu contrapor um conjunto de popostas suficientemente pragmáticas, que convencessem os venezuelanos - especialmente aqueles muito impactados pelas políticas públicas do período Chavez - de que se tratava de uma nova 'bandeira', cujos compromissos fariam jus à (re)ocupação do poder central pela direita;

2. São Paulo: Fernando Haddad, do PT, chegou ao segundo turno porque preparou um painel convincente de propostas de programas e de políticas públicas, dispostos ao longo de toda a campanha, de forma muito didática, em todos os meios de comunicação de que lançou mão. 
A despeito de seu belo porte físico, de sua relação próxima com os maiores líderes políticos brasileiros e da aproximação de partidos relacionados a setores importantes (e, sim, muitas vezes reacionários) da política paulistana, Haddad tem grandes chances de se tornar prefeito da maior cidade do país apenas por, junto com o argumento da "alternância", ter apresentado ao seu eleitor um projeto de poder, a ser debatido com seus oponentes.

Quem argumenta pela "alternância de poder" sem ter em vista o projeto político-partidário do candidato deprecia a capacidade de diálogo político, que o eleitor latinoamericano vem apresentando nos últimos anos. Quem usa de razões tão rasas atesta, pelas próprias palavras, o seu descompasso para com a História do Brasil e de toda a América Latina.

O Modo versus O Medo


A ocupação de um governo federal, estadual ou de uma prefeitura não é mais fator «determinante» para a reeleição de um candidato. Alguma influência ela exerce, como é óbvio, porém a relação do povo para com o estado mudou muito.

Tanto em 2008, ano em que etnografei uma eleição na Bahia, como agora, nesta eleição de 2012, houve muitos candidatos a reeleição "vendendo" o próprio governo. Porém o povo, quando quer mesmo "mudar", não há jeito que o convença do contrário, ainda que se trate de uma administração bem avaliada.

Se o povo, entretanto, não apresentar relevante tendência à mudança (porque mudar todo mundo quer, não é mesmo?), ele pode simplesmente testar eleitoralmente o candidato/partido. O caso do segundo turno, em Vitória da Conquista, a meu ver, é desse tipo. Há outros dois, que eu considero interessantes:

São eles, as reeleições em primeiro turno de Márcio Lacerda (PSB), em Belo Horizonte, e de José Fortunati (PSDB), em Porto Alegre.
Um dos candidatos venceu com alguma folga, todavia todos entenderam bem a mensagem subjacente na urna, que foi: "queremos mais eficiência!" Ambos os reeleitos, em seus discursos de congratulação, ressaltaram este "porém" e prometeram "ajustes".

Venceram pelo uso da máquina administrativa? Também, mas foram duramente avaliados. Suas vitórias significam pouco em termos de capital político, pois são extremamente vulneráveis a sobressaltos, nos próximos quatro anos.

Em outros tempos, mais de 50%  dos votos válidos já valeria alguma empáfia. Agora, não. O povo mudou. Embora cada eleição seja única, este exemplo vale também para o Chávez.

Há ainda os inúmeros casos de "erros da pesquisa", em que os resultados contrariam completamente o cenário desenhado pelos veículos de comunicação. De uns tempos para cá, o povo tem feito escolhas muito bem enredadas, o que inegavelmente significa um avanço da democracia, visto que a propaganda tem perdido terreno para discursos focados na "eficiência administrativa", ou seja, no modo como se governa. O povo se emociona e vota também por esse viés. Não cabem mais apenas o "Eu faço, ele não", ou o "eu faço melhor que ele". Foi-se a era do "político bom é o competente". O povo quer saber de acesso, humanidade e respeito. Competência são outros quinhenos.

O que é certo é que, com boa concorrência, o chavismo, assim como os psdbismos gaúcho e mineiro, poderiam ter sucumbido. Veremos agora se eles conseguirão procriar substitutos. Ganharam mais seis e, no caso dos nossos, mais quatro anos para conseguirem fazê-lo.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

O falo de Esteban

Um homem costumava andar nu pelas ruas de Barcelona. Cozinheiro, caminhava pela cidade logo de manhã e gostava de o fazer completamente nu. Se assim também cozinhava, não haveria proplemas com pelos: é tatuado e depilado, na verdade, ele andava com uma sunga pintada em suas nádegas e pelve, deixando porém, em pele, seu falo que, apesar de, obviamente, flácido, parecia firme, no auge dos seus 67 anos.

Esteban Trancón Ejarque foi proibido de circular nu, sob risco de multa, pelas ruas catalãs, por decisão da centro esquerda em aliança com a direitona locais. As pessoas se ultrajavam com a sua nudez, mas em que ela avilta? Ele fez do corpo uma obra de arte e o manteve, com saúde. O problema era o falo, que continuava sem pinturas.

A interdição do corpo em pelo de Esteban é a denúncia de um retrocesso a acontecer em nosso tempo. Por este homem, poderemos descobrir o medo que nos oprime, a ponto de alguns de nós não conseguir sequer olhar para um pênis, ainda mais para um pênis grande.

O falo de Esteban é o sonho ocidental de paraíso, idílico, anterior à própria "civilização"; sonho que perdemos.

Quem só sentiu desejo sexual pelo falo de Esteban não fui eu, foram os espanhóis da centro-esquerda junto com os da direita radical, na Cataluña. Eles povoam uma nova "facção" política transnacional.



Reacionarismo como ideologia. "Freud explica".















terça-feira, 18 de setembro de 2012

'Manif'


(Clique nas fotos para acessar as galerias)

Foi pesaroso para mim assistir àquelas centenas de milhares de pessoas ocuparem as ruas de Lisboa, em protesto contra medidas de austeridade econômica. Não digo isto para ir de encontro ao direito legítimo à manifestação popular, tampouco para dar algum azo a ações destrambelhadas da polícia - jamais! Digo tal coisa, porque pouco resultará desta marcha com mais de 100 mil pessoas nas ruas, quase 10% da população da cidade.

Portugal está por demais comprometido por acordos selados em nome da zona Euro, que depauperaram setores fundamentais de sua economia, num arranjo que reorganizou a Europa e fez com que países que já eram periféricos, como ele e a Grécia, tornassem-se ainda mais dependentes do 'centro' franco-germânico, enquanto outros, tais quais a Espanha e a Itália, passassem a comprometer divisas em nome dos interesses do Bloco e vissem, ano após ano, suas economias entrarem em colapso, em função de gestões extremas do sistema financeiro.

A esta Europa periférica, mediterrânica, morena, tão envolvida nesta retroalimentação macabra da fera que ajudou a criar, pouco parece restar, além dos socorros emergenciais pelo Fundo Monetário Internacional. Porém, estas "ajudas" fazem-na sucumbir às condicionantes baseadas em ajustes econômicos e sociais, que privilegiam os donos do capital especulativo e assaltam aos pobres nos seus direitos, especialmente os trabalhistas. São engolidos por aquela fera e ela tem nome, "Troika". Contra ela, o que se há de fazer?!

Instaurar uma guerra civil, romper compromissos, reinventar o socialismo, derrubar sucessivamente governos, fingir que há uma democracia? Tudo isso ou nada disso?

Diante de alternativas aterradoras, realmente vale encher as ruas de gritos, vale transpirar, vale simular uma catarse. Vale, acima de tudo, entregar a vida à ilusão de que se tem algum poder nas mãos. Mas, não, Portugal, sinto tanto ao lhe dizer que, como está, isso vai dar em lugar nenhum!
Soltar-se outra vez ao oceano, pequenino país, já não se cogita. Atrelarem-se as mãos latinas, neste sul europeu, quem sabe resultaria em uma saída, porém, onde estão a coragem, o gosto pela aventura de Roma, de Madrid e de Lisboa?!

Custa menos aos governos da Europa latina arrocharem seus povos, semearem-lhes o desespero e cumprirem - apesar dos povos - a vontade de credores internacionais, ao invés de recriarem o mundo de acordo com suas vontades, como o fizeram em outros tempos. Porém, nada nunca foi pacífico.

Resta pouco a fazer, então, Portugal. Sinto pena ao ver seus homens, mulheres, velhotes e crianças tomarem as ruas. Ao menos que isto lhes traga algum alívio e, se preciso for, algum respeito à juventude portuguesa que, numa madrugada próxima, acabará por tomar as armas para lutar desesperadamente por uma utopia sem nome; utopia amarrada por cordas quentes à perna bamba da mesa ibérica, sobre a qual foram escritos os tais acordos que agora lhe fazem escravo daquele monstro sem rosto, sem voz e com inúmeros braços, alimentado durante anos pela sua sanha de ter e de ter mais.

O fado é seu, Portugal.
Ir à guerra contra si mesmo é menos do que aquilo que lhe reserva o futuro, tal qual anunciado nesta marcha do nada a lugar algum.